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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Domingos Simões Pereira em entrevista no Odemocrata: “CEDEAO convidará Cipriano Cassamá para divulgar o relatório de Conacry”

[primeira parte da entrevista] O líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões Pereira, revelou que o mediador da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) está preparado para convidar o presidente da Assembleia Nacional Popular (ANP), Cipriano Cassamá, acompanhado dos líderes das bancadas parlamentares, para que divulgue o conteúdo do relatório da reunião das negociações de Conakry.

Simões Pereira falava numa entrevista exclusiva para a rúbrica “Grande Entrevista” do semanário O Democrata, sobre a actual crise política, sobretudo no concernente à implementação do ‘Acordo de Conakry’ bem como das divergências internas no PAIGC e da questão do regresso do grupo dos 15 deputados expulsos das fileiras do partido.

Para o presidente do partido libertador, a questão dos 15 deputados dissidentes é uma falsa questão. Explicou ainda que “Os quinze acabaram por ser a solução que o Presidente da República encontrou para justificar a oposição que quis propor contra o meu governo. Ele tentou muita coisa. Começou por dizer que a unanimidade mata a democracia, invocando que não era normal o PAIGC ter o entendimento que tinha com o PRS”.

O Democrata (OD): O partido, através da resolução do Comité Central, fez saber que não participaria no governo de Umaro Sissoco Embaló e que nem permitiria que os seus dirigentes fizessem parte do mesmo. Qual é a estratégia do partido neste momento, sobretudo se ficar fora do governo liderado por Umaro Sissoco?

Domingos Simões Pereira (DSP): Aqui não se coloca uma questão de estratégia, coloca-se sim uma questão de coerência. Penso que o PAIGC é um partido idóneo, maduro e responsável. Os partidos são associações políticas que têm que dizer ao povo que podem contar com uma visão séria, ou melhor, uma postura de responsabilidade em relação as suas obrigações.

A Constituição da República da Guiné-Bissau tem sido vilipendiada ou esfrangalhada nesta legislatura. Nós entendemos que temos a responsabilidade de encontrar soluções que permitam viabilizar a actual legislatura, até a clarificação de determinados dispositivos legais.

Fomos à Conakry com um sentimento de responsabilidade, participámos nas negociações esperando contribuir para ultrapassarmos esta situação. Tal como havíamos feito em Setembro de 2015, quando o Supremo Tribunal de Justiça aprovou um Acórdão favorável àquilo que era a revindicação do PAIGC. Fizemos uma cedência, dissemos: apesar de o Supremo Tribunal nos dar razão, nós compreenderemos se o Presidente diz que não tem condições para trabalhar com A, B ou C.

Agora fomos a Conakry e fizemos as cedências possíveis para encontrarmos uma solução. E quando se chega a uma solução e se assina um acordo, esse acordo é lei para as partes. Nós não podemos aceitar que, de regresso a Bissau, haja um conjunto de peças de teatro que vão no sentido de descredibilizar e fazer tabua rasa daquilo que aconteceu para voltar a dar ao Presidente da República o direito de decidir tal como ele quer.

Hoje muita gente pode continuar a pensar que o problema é Domingos ou o problema é o PAIGC. Eu não tenho dúvidas nenhumas, até porque as circunstâncias nos permitem lembrar o Comandante Fidel Castro que dizia: A história vai nos absolver. Eu digo a história vai fazer-nos justiça. Porque não estamos a lutar por uma questão de lugares, uma questão de entrar para o governo ou de poder beneficiar disto ou aquilo. Não é isso.

Nós estamos na política porque acreditamos num ideal. Nós temos um propósito e o nosso propósito é afirmar um Estado de direito democrático e não pode ser porque eu gosto, porque eu não gosto. Será porque é assim, porque assim é que está certo. Quando há uma entidade que pensa que pode reclamar para si todas as competências e todas as responsabilidades, então estamos a pôr em causa o fundamento da existência do nosso Estado democrático e, portanto, isto devia interpelar a todos. Por isso é que nós dissemos: um acordo é um acordo, quando é visto no seu todo.

Se um dos pontos do acordo é violado, então deixamos de ter o acordo. O Presidente da República vai usar as prerrogativas que pensa que tem e vai tentar implantar suas ideias. Nós no exclusivo e absoluto respeito pela ordem democrática, vamos fazer o uso daquilo que são competências que nos são reservadas. O que nós não queremos é que, perante esta deriva constitucional e democrática, sejamos parte desse jogo.

OD: O PAIGC defende a legalidade constitucional, mas há quem critique o partido (PAIGC) por ter assinado o Acordo de Conakry, que não leva em conta ou que menospreza a Constituição da República da Guiné-Bissau. Quer fazer um comentário sobre isso?

DSP: Quem acha que nós devíamos ser intransigentes no respeito pelos dispositivos constitucionais, devia ajudar-nos a responder àqueles que acham exactamente o contrário…penso que nós, durante todo este processo, tentamos realmente colocar a Constituição, as leis e os princípios democráticos em primeiro lugar. Contudo, há sempre um limite a partir do qual devemos demostrar alguma flexibilidade, por exemplo, nós chegamos à Conakry e durante três dias mantivemos sempre a nossa posição.

Ao quarto dia compreendemos que se saíssemos de Conakry sem um acordo, íamos ser responsabilizados por não o termos facilitado. Sabíamos que, ao termos que escolher um dentre três nomes apresentados pelo Presidente da República, estariamos a violar a nossa constituição. Nada dá ao Presidente da República o direito de ser ele, a propor os nomes para nós escolhermos. Mas a partir do momento em que nós aceitamos ir à Conakry, aceitamos a mediação.

Compreendemos que se saíssemos de Conakry sem escolher um nome, isso seria entendido como uma intransigência da parte do PAIGC, portanto nós fizemos uma cedência. Agora o que eu não entendo é o seguinte: Nós voltamos para Bissau e não ouvimos muita gente questionar o que é que de facto aconteceu em Conakry. Quem é que está a dizer a verdade?

Mas há prossupostos para se chegar à verdade. É preciso perguntar, quem é que levou os três nomes? Alguém tem dúvidas?… todos sabemos que foi o Presidente José Mário Vaz, porque antes de sairmos de Bissau, os três nomes já circulavam na praça pública. Se o Presidente da República levou três nomes, alguém tem dúvidas que o Partido da Renovação Social (PRS) e o Grupo dos 15 deputados estão alinhados com o Presidente da República?!

Se os três nomes não são nomes propostos pelo PAIGC, se o PAIGC voltou de Conakry a dizer que foi retido um nome consensual, se o presidente da Assembleia Nacional Popular diz que foi retido um nome consensual, como é que se pode ter dúvidas que houve realmente a escolha de um nome, só porque a CEDEAO não divulga o nome de forma explícita?!

A CEDEAO não divulga esse nome de forma explícita, porque no início desse diálogo em Conakry, entendeu-se que é preciso respeitar os órgãos de soberania nacionais. Um Presidente da República é um Presidente da República e, portanto escolhido o nome é preciso dar-lhe a prerrogativa de ser ele a anunciar esse nome. Mas já que o próprio Presidente da República não respeitou esse princípio, então nós estamos a incitar a CEDEAO e demais entidades da comunidade internacional para tornarem público a Acta e o Relatório dessas negociações que irá esclarecer as coisas.

OD: Após a pressão dos partidos políticos da Guiné-Bissau, a representação da CEDEAO no país publicou apenas a cópia do acordo em três línguas, onde não consta nenhum nome.

DSP: Mas claro que não consta, estou a dizer que o acordo não chega a esse ponto, porque é uma competência reservada ao Presidente da República. Eu penso que vocês deviam ter também interesse em ter acesso ao código de postura que foi acordado antes do início das negociações. As partes, quando chegaram a Conakry, aceitaram um código de postura e, neste código de postura estava escrito que nenhuma entidade devia divulgar partes ou o tudo aquilo que estava a acontecer. Para quê? Para reservar ao Presidente da República, enquanto primeiro magistrado da Nação, o direito de fazê-lo.

Portanto, se estamos a procurar coisas aonde elas não existem, não encontraremos nada. O que o mediador pode publicar é o acordo. O acordo é público! Porque é que nós falamos em ata ou relatório, porque pensamos que não há ninguém que conduza uma mediação e não elabore uma ata ou um relatório.

Alguém vai perguntar-me, você viu esse relatório? Não, não vi relatório nenhum, porque eu não estava a escrever relatório nenhum! Se eu fosse aqui o vosso mediador entre os senhores para qualquer entendimento, eu facilitaria o vosso encontro, mas no final eu vou ter uma memória de todos os passos que nós demos até chegar ao acordo. O que colocaria na mesa dos senhores seria o acordo a que se chegou.

O que nós estamos a pedir é que a memória do mediador sirva para realmente esclarecer quem está a dizer a verdade em relação a este processo.

OD: Senhor presidente, até onde o relatório e a ata podem sobrepor-se ao acordo assinado e que foi divulgado publicamente?
DSP: Não, nós não estamos a dizer que a ata deve sobrepor-se ao acordo. O que nós estamos a dizer é que o acordo é tanto a parte que ficou escrita, como eventualmente a parte que não ficou escrita. Entre cidadãos íntegros, entre instituições que respeitam a sua palavra não é preciso estar escrito para ser um contrato. Mas há uma coisa que acho que escapa às partes: nós fomos à Conakry numa perspectiva de sinceridade, porque pensamos que todos tínhamos consciência de ter deixado Bissau numa situação de bloqueio.

Nós deixamos em Bissau uma situação de bloqueio. A Assembleia Nacional Popular não estava a conseguir funcionar. O que serve ao PAIGC tentar ser esperto e tentar enganar os outros, se ao enganá-los nós voltaríamos irremediavelmente à situação de bloqueio?! É isso que nós não entendemos. Nós fomos à Conakry, negociamos, chegamos a um acordo e entendemos que com esse acordo iriamos desbloquear a situação. Se acha que ficando com o texto escrito e que vale apenas aquilo que ficou escrito, se pensa que com isso sai a ganhar, desculpem-me dizer que isso é uma esperteza completamente saloia. É uma esperteza saloia porque o acordo entre as partes de um processo bloqueado devia ser realmente de interesse de todos. Porque? Porque é que estamos a negociar?

Nós estamos a negociar porque queremos desbloquear a situação do nosso país. O que serve tentar enganar-me? Digo não…não… se não ficou escrito, eu não tenho nenhuma responsabilidade sobre isso. Aie?! Agora como é que me obriga a ir ao seu encontro?! A memória que estamos aqui a testemunhar em relação àquilo que aconteceu em Conakry é precisamente porque nós sabemos que não só estamos seguros daquilo que estamos a dizer, como também houve entidades que testemunharam o momento e que sabem que foi isso o que aconteceu. Se dizem que não aconteceu, eu compreendo que eles tenham algumas reticências em dizê-lo … porque há um Presidente da República metido no processo, então ninguém quer desrespeitar ou passar a frente do Presidente da República. Se parte do acordo não é observado é porque não há acordo! Não havendo um acordo, voltamos ao ponto de partida, o que significa voltar ao ponto de partida? É voltarmos à nossa Constituição.

O Presidente da República cada vez que demite um governo, devia compreender que o que a Constituição lhe diz é que convide o partido vencedor das eleições para formar novo governo. E ele disse não… eu não posso convidar o partido vencedor para formar novo governo, porque esse partido já não tem a maioria na Assembleia. Não é competência do Presidente da República decidir quem tem essa maioria. Por quê? Porque só se sabe quem tem maioria, aquando da votação na Assembleia Nacional popular. A nossa Constituição não confere essa competência ao Presidente da República.

O Presidente vai dizer que invocou isso na Assembleia, que já há uma nova maioria e uma nova configuração e de seguida vai dizer que o PAIGC não deixou que o programa chegasse à plenária… Afinal, não tem uma nova maioria. A Assembleia Nacional Popular é constituída por todos os órgãos, não é só a plenária. A plenária pode ser o maior órgão. Portanto, é verdadeiramente uma estratégia saloia!

OD: Apesar do Comité Central ter decidido, na sua resolução, que o partido não participaria no governo de Umaro Sissoco Embaló e nem permitiria que os seus dirigentes fizessem parte do mesmo. É possível que o PAIGC receba o Primeiro-ministro Sissoco?

DSP: Com certeza! Como Primeiro-ministro, não! Mas enquanto cidadão, sim. Até invocou ser um militante do PAIGC. O que nós estamos a dizer é outra coisa. Eu compreendo que muita gente quer colocar o acento tónico na figura de Sissoco, como ontem quiseram colocar um acento tónico na figura do Baciro Djá, assim como eventualmente no futuro poderão colocar o acento tónico nas outras figuras. O problema não é esse, não é Sissoco. O problema não é Djá, o problema não é Braima, o problema não é nada disso. Os problemas são as leis e os princípios. Reparem, todos nós, independentemente das funções que exercemos, somos parte desta sociedade. Nós dizemos que a política é também um projeto de sociedade.

OD: Senhor presidente, há um mistério à volta desses documentos. Mesmo os signatários não têm acesso ao relatório?

DSP: Não têm como procurá-lo, porque é um documento interno do mediador. O mediador sabe que está a falar de uma entidade soberana.

OD: O Senhor tem acesso a esses documentos?

DSP: Não, eu não posso ter acesso a esses documentos. O que eu estou a dizer é que um mediador, quando conduz um processo de mediação, tem que elaborar um documento. Agora uma coisa completamente diferente é que se ele pode torná-lo público. O mediador entendeu que devia apresentar o documento exclusivamente à Cimeira dos Chefes de Estado da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Foi esse o seu entendimento. Mas nós, o que estamos a dizer é que alguns dos partidos que tomaram parte na mediação estão a pôr em causa a seriedade do mediador.

É chegado o momento de o mediador tornar público esse documento. Nós sabemos que o mediador está preparado para fazer as duas coisas: O Mediador está preparado para convidar o Presidente da Assembleia Nacional, Cipriano Cassamá, acompanhado dos líderes das bancadas parlamentares, para divulgar, ele, Cipriano Cassamá, o conteúdo do documento. Isso nós sabemos. Sabemos também que o mediador prepara-se para, na próxima Cimeira de Chefes dos Estados da CEDEAO, tornar público o documento.

Não houve uma oportunidade de torná-lo público, porque em Lomé, no Togo, aquando da Cimeira dos Chefes de Estado, o Presidente da República da Guiné-Bissau não se mostrou disponível para participar num encontro no qual o documento seria divulgado, invocando que não se sentia bem. Abandonou Lomé e foi para Lisboa. Foi ali que ouvimos o Encarregado dos Negócios Estrangeiros a dizer que o Presidente não se sentia bem e que estava no hospital.

Mas duas horas depois, estava em casa e no dia seguinte estava a viajar para Bissau. Temos que tratar o Estado como Estado e chega de gozar com o nosso povo, fingindo que é toda a classe política, não. Todos sabem quem está a brincar com a situação do país. Que custe o que possa custar, mas que o resultado possa significar realmente um ultrapassar definitivo deste estado de coisas.

OD: Domingos Simões Pereira é do Partido da Convergência Democrática (PCD) ou do PAIGC? Chegou a ser dirigente ou militante do PCD?

DSP: Eu nunca fui do PCD, nunca. A minha trajectória política acompanhou a minha própria geração e eu não sou da geração do PCD. No período da fundação do PCD não estava cá. Vim de férias e tive a informação sobre o projecto de formação do PCD. Eu nunca fui do PCD, portanto, esta é uma suposição que eu já ouvi e que penso que corresponde a esta deriva nacional, uma tentativa de desacreditar tudo e todos.

Acho que o meu irmão foi, na primeira legislatura da abertura democrática, ou terá sido candidato a deputado pelo PCD. Eu não! Eu nunca tive uma ligação com o PCD. Tenho muitos amigos que são do PCD, eu tenho respeito pelo PCD como tenho respeito por todos os partidos políticos, mas eu não tenho nenhuma ligação com o PCD. Sou exclusivamente do PAIGC, nunca pertenci e nem alguma vez fui simpatizante de qualquer outro partido político.

OD: Qual um dos seus irmãos foi candidato a deputado pelo PCD?
DSP: Camilo Simões Pereira.

OD: Como é que encontrou o PAIGC depois do congresso… o Senhor herdou um partido de vícios?

DSP: Não… eu encontrei um partido com muitas dificuldades, mas eu não posso dizer que isso me tivesse surpreendido. Eu, antes de me candidatar à liderança do partido, eu fiz um diagnóstico do partido e avaliei a situação interna e a visibilidade externa do partido, portanto eu sabia ao que ia…

Digo simplesmente que qualquer líder traz para as estruturas do partido aquilo que ele tem de melhor ou aquilo que ele pode oferecer. O que eu digo é que Amílcar Cabral foi o fundador do PAIGC e ao fundar o PAIGC, propôs uma visão e uma filosofia. Portanto, um líder com uma filosofia, com uma visão e com um futuro. Cabral conquistou uma legitimidade política e uma legitimidade histórica.

Nino Vieira terá sido o substituto de Amílcar Cabral em termos de liderança do PAIGC. Aquilo que Nino Vieira assume e melhor representa no seu consulado foi a sua legitimidade política e a histórica. Já não tanto a parte da filosofia política e já não tanto a sua ideologia, mas de legitimidade, ele tinha.

Carlos Gomes Júnior, a quem substituiu de verdade? Houve sim outros presidentes intermédios.  Mas de verdade, o eleito em 2002 foi Carlos Gomes Júnior e o que Carlos Gomes Júnior trouxe foi uma ideia de algum modernismo. Um modernismo visto da perspectiva de um empresário com capacidade para dar ao partido aquilo que o partido não tinha. O que é que partido não tinha em 2002!? Não tinha financiamento, ou melhor, não tinha a capacidade financeira.

Não teve capacidade de atender às expectativas dos militantes durante muito tempo. A partir do 2002, passamos a ter um líder do partido que se afirmou, fundamentalmente, pela sua capacidade económica e financeira, mas reconhecido como tal. Muitos entendem, dentro do partido, que era isso que fazia falta ao partido. Até porque é preciso lembrar que a abertura política proclamada desde 1990 e a sua efectivação em 1994, consubstanciou-se numa espécie de simplificação desse exercício político.

Para muita gente, quando falamos de política, estamos a falar sobretudo de duas coisas: Estamos a falar de ideologia que instrui o partido e estamos a falar da conquista do poder. Quando nós adotamos a democracia, para muitos nós abandonamos a componente ideológica e assumimos exclusivamente a componente da luta pelo poder. Se ficamos numa perspectiva exclusivista de luta pelo poder, o importante é quem é que nos dá as munições importantes para podermos conquistá-lo.

Nessa altura, a avaliação da grande maioria dos militantes do partido era que o meu presidente, Carlos Gomes Júnior, trouxe exactamente aquilo que o partido não tinha. É nessa perspectiva que eu digo que a minha chegada ao partido vem representar uma nova ruptura em todo esse processo, porque eu não tenho nem legitimidade histórica e não tenho nem legitimidade política e nem tenho dinheiro para dar ao partido.

Afinal, o que tenho para dar ao partido?…eu digo que tenho para dar ao partido um retorno à sua ideologia. Eu proponho ao partido ideias no sentido de ancorar o partido à uma filosofia política de princípio de esquerda, igualitária, inclusiva e de desenvolvimento, mas isso tem que ser feito com o tempo e tem que ser feito com muito trabalho.

OD: Há quem diga que foi aí que começou a sua ruptura interna no partido porque o senhor não tem dinheiro. É verdade que o choque começou aí?

DSP: Eu penso que o choque tem a ver não só com o facto de eu não ter dinheiro e não poder dar dinheiro. O choque tem a ver, sobretudo com o facto de os que tinham dinheiro pensarem que deviam ser os substitutos legítimos do presidente do partido que tinha sido afastado. Em 2012, quando Carlos Gomes Júnior foi afastado na sequência de um golpe de Estado, havia dentro do partido militantes, dirigentes que entenderam que tinha chegado a sua vez.

Porque se a lógica é de concorrência através de argumentos como recursos financeiros, então eles estariam melhor preparados e na linha de sucessão. Portanto, eu chego à Guiné e regresso ao partido. Era quase como alguém que veio de fora. Portanto, visto nessa perspectiva de concorrência de quem tem capacidade, sobretudo financeira, é que deveria assumir o partido, então eu não deveria candidatar-me. Contudo eu entrei na candidatura, apresentei um projecto político e esse projecto foi mobilizador e isso representou um grande choque para muita gente.

OD: Não pensou que em algum momento poderia ter os problemas que tem hoje?

DSP: Não…eu penso que o problema não é meu. Penso que o problema é do país e da sociedade. Eu penso que este é um problema que nós precisamos enfrentar. Pode não ser o Domingos e pode não ser o Nhaga, mas alguém vai ter que enfrentar essa situação. A viabilização da sociedade através de recursos financeiros é insustentável e, é uma simples miragem. Todos acreditamos que a solução através do atendimento das necessidades imediatas é a fórmula que melhor funciona. Ora, em termos de partidos políticos e em termos de projectos de especificidade, isso é uma miragem. Se o candidato à liderança tivesse a capacidade de dar a todos tudo aquilo que cada um ambiciona, não haveria qualquer tipo de problemas. Ele seria o nosso melhor líder.

O problema é que por definição você nunca tem o suficiente para dar a todos tudo o que querem e, portanto cada vez que consegue atender às necessidades e expectativas de 5 ou 10 pessoas, ficam centenas por atender. Eu acredito que a solução não é dar. A solução para mim é criar oportunidades para que todos possam aceder (e resolver as suas necessidades), dependendo do seu empenho, dependendo da sua capacidade e dependendo da sua inteligência.

OD: Podia explicar-nos de uma forma sintética a origem da crise entre a direcção do partido e o grupo dos 15 deputados?

DSP: Os 15 é uma falsa questão! É uma falsa questão… os quinze é uma falsa questão. Os quinze acabaram por ser a solução que o Presidente da República encontrou para justificar a oposição que quis propor contra o meu governo. Ele tentou muita coisa. Começou por dizer que “a unanimidade mata a democracia”, invocando que não era normal o PAIGC ter o entendimento que tinha com o PRS.

Invocou muitas coisas, invocou a corrupção e, foi tentando muita coisa até chegar aos 15. Os quinze acabaram por servir os propósitos do Presidente da República. Os 15 não existiam.

É muito importante, quando diz – quando é que nós chegamos a este ponto de rutura interna dentro do partido? Nós chegamos à Cacheu para um congresso. No Congresso de Cacheu havia cerca de oito (8) candidatos, todos convencidos que tinham condições para liderar o partido, porque o presidente tinha sido afastado. Nas vésperas da ida para Cacheu ou mesmo em Cacheu acabou por acontecer uma coisa interessante. Seis (6) candidatos decidiram juntar-se à volta daquilo que se chamou na altura de Aliança, dois (2) outros candidatos ficaram de fora.

Entretanto, quando chegamos a Cacheu, qual era o entendimento daqueles que entraram na lista da Aliança – é dizer, nós vamos seguir um determinado padrão de comportamento dentro do partido, o que significa que se algum de nós vencer dentro do partido vai promover uma distribuição democrática dos diferentes cargos dentro do partido. Na altura ficaram de fora o Braima Camará e o Aristides Ocante da Silva.

Fomos ao congresso, houve votação e eu fui eleito presidente do partido. Ao ser eleito presidente do partido, obviamente que eu juntei-me ao grupo dos cinco candidatos que desistiram a meu favor. Entretanto, eu considero que foi perfeitamente normal que eu quisesse criar uma estrutura directiva do partido que integrasse todos os candidatos que desistiram ao meu favor, mas eu fiz um pouco mais. Eu convidei Braima Camará a apresentar propostas para nomear elementos que o apoiaram para o Bureau e o Comité Central.

Onde é que houve divergências? A divergência aconteceu na própria perceção dessa divisão. Para o Braima Camará, em Cacheu só houve dois candidatos, porque quando os cinco (5) desistiram a meu favor, ele considerou que esses já não eram candidatos, porque desistiram. E portanto, assim que eu ganhei o congresso, ele achou que, quando falei de integração significou que nós deveriamos dividir a nomeação dos elementos nos órgãos do partido, quase que de forma equitativa. Ele devia ter 45 por cento e eu devia ter 55 a 60 por cento. Mas essa não era a minha perceção! A minha perceção e daqueles que saíram como vencedores em Cacheu, é que eu ganhei sim, mas eu ganhei, pertencendo a uma Aliança.

Portanto, todos os outros que desistiram para entrar na Aliança, era perfeitamente normal que tivessem uma quota para colocar os seus apoiantes na direção do partido. A primeira grande discussão foi essa. Quando ele disse que os meus apoiantes foram preteridos, não é verdade. O que aconteceu foi que ele teve cerca de vinte e tal por cento de presenças nos órgãos do partido e ele gostaria de ter quarenta e cinco (45). Mas se ele tivesse 45%, teria mais gente que eu, porque eu tive que distribuir esses cargos a vários elementos (da Aliança).

A situação continuou. Chegamos à Bissau e tive muitas reuniões com o Braima Camará. Propus-lhe que como é empresário, eu pensava que nós poderiamos entendermo-nos. Apoiá-lo-iamos vamos naquilo que fazia, porque ele é empresário. Que deixasse que as estruturas do partido realmente funcionassem. Ele não concordou comigo, achou que devia candidatar-se até porque com a escolha do José Mário Vaz como candidato presidencial, ele achou que tinha capacidade e força para impor-se dentro do partido. E ele foi, cada vez que havia uma candidatura apresentava-se e perdia. Depois dizia que estavamos a juntarmo-nos contra ele, pronto, foi este sentimento que foi fazendo mossa.

OD: Havia outros motivos para essa ruptura?

DSP: O grande momento, o grande elemento de ruptura foi o famoso FUNPI que a Câmara do Comércio Industria, Artesanato e Serviços (CCIAS) considerava como uma taxa paga pelos empresários. E que a CCIAS tinha o direito de receber essa taxa. Eu tinha uma perceção completamente oposta. O FUNPI não é uma taxa, o FUNPI é um imposto, sendo um imposto, a única entidade que tem competência para cobrar um imposto num país é o Estado. Até nos países mais liberais do mundo, os Estados Unidos da América, a Inglaterra e outros, ninguém delega ao setor privado a cobrança de impostos.

Às vezes as pessoas não têm ideia daquilo que estamos a falar. Estamos a falar de o Estado entregar a um, dois ou três elementos do setor privado, valores extraordinários. Estamos a falar de os elementos do setor privado tirarem por mês qualquer coisa como três a quatro mil milhões de francos CFA, que nem chegam a justificar. Estamos a falar não só da taxa de exportação da castanha de cajú, estamos a falar da taxa de exportação de outros produtos e de taxa de importação de produtos alimentares.

Quando nós começámos a pedir justificativos dos valores que eles recebiam, entenderam que estávamos a pôr em causa os direitos conquistados. Cheguei até a dar um exemplo de forma pública: eu tinha ido ao hospital, eu costumava visitar os hospitais. Criei um fundo para tentar acompanhar aquelas famílias mais carenciadas, porque encontrei casos em que havia pessoas que não medicavam, porque não tinham 15 mil francos CFA.

Aconteceu um caso muito concreto. Uma dirigente do PAIGC sentiu-se mal numa reunião do Comité Central e foi levada ao hospital. Quando a reunião terminou por volta da meia-noite, fui ao hospital visitá-la, felizmente, ela já estava a dormir, mas havia uma mulher a chorar copiosamente e perguntei o que se passava. Disseram-me que a mulher estava a chorar porque há quatro dias que não tomava a sua medicação. E quanto é que custava? Quinze mil francos CFA, disseram. Disse que não era normal. Como é que um Estado não conseguia atender uma cidadã que necessitava de 15 mil e está a oferecer a outros cidadãos doze mil milhões de francos CFA por ano, correspondentes a 24 milhões de dólares? O que é que justifica isso?

Mas eu não me coloquei na posição de dono e senhor de tudo, dizendo: a partir de agora eu faço como quero. Pedi uma auditoria. Assim que auditoria foi feita, as pessoas escreveram cartas para dizer que não iam colaborar com a auditoria, porque não estavam de acordo com a sua realização. Você imagina que um Estado que não pode fazer auditoria as suas próprias contas!

Porquê é que nós todos, enquanto cidadãos, não pedimos a apresentação de contas a todos? Eu estou aqui, eu exerci uma função de Primeiro-Ministro. Fui acusado de muita coisa, pedi que as pessoas apresentassem as provas disso. Da mesma forma, eu pedi que as pessoas que geriram os fundos que tiveram proveniência pública que também apresentassem (as suas contas). Porque é que isso tinha de ser razão de conflito direto entre uns e outros? O dinheiro é de nós todos, porque é que tinha que ser gerido por uns e não por outros?

Já houve momentos em que nos acusaram, dizendo que o governo do Domingos Simão Pereira é que tomou o dinheiro do FUNPI e utilizou-o. Não aconteceu nada disso. O que aconteceu foi que eu dei instruções para que o ministério das finanças não pagasse mais nenhum franco do FUNPI…não pagar! Mas a pressão foi tanta. Houve uma altura em que a Câmara do Comércio mandou buscar mulheres no interior, porque deviam ir às feiras de Dakar e Abidjan. E elas ficaram aqui acampadas, a espera que o governo disponibilizasse essa verba para poderem viajar. Isso foi um método de pressão. Para que depois se pudesse dizer às mulheres se elas não fossem a Dakar e Abidjan, era porque o governo não queria entregar-lhes o dinheiro. De tanta pressão, o ministro das finanças acabou por ceder e entregou um montante superior a quatrocentos e vinte milhões (420.000.000) de francos CFA.

Desses 420 milhões disponibilizados, nós sabemos que elas utilizaram cerca de 80 milhões nas feiras, 20 milhões foram gastos na gestão corrente da câmara e os restantes trezentos milhões não foram justificados. Foram levados para parte incerta e ninguém prestou qualquer tipo de contas. O que foi que eu decidi? Decidi, enquanto chefe do governo, ir ao Ministério das finanças, verificar quanto é que havia na conta. Mandei pagar a todas as instituições internacionais com quem tínhamos dívidas, a todas. Pagámos uma média de 200 a 300 mil dólares a cada uma dessas instituições. Eu não peguei nesse dinheiro e meti noutro sítio! Não, paguei as dívidas públicas que nós tinhamos.

OD: Qual era o montante exacto utilizado no pagamento das dívidas?

DSP: Não conheço o montante exacto, eu sei que estaria em causa cerca de sete ou oito mil milhões de francos CFA, o que corresponde a cerca de 16 milhões de dólares. Sei que pagamos a todas as instituições um valor básico que permitiu-nos, de fato, prepararmo-nos para a mesa redonda e chegar à mesa redonda numa situação de verdadeira solvência, porque deixamos de ter luzes encarnadas e passamos a ter luzes verdes o que criou um ambiente de diálogo com a comunidade internacional.


Continuação da entrevista na próxima edição.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Para bom entendedor, meia palavra basta

Presidente da Guiné-Bissau, José Mário Vaz
Por, Carpinteiro guineense, Wilrane Fernandes

A língua portuguesa que herdamos através da ocupação abusiva da nossa terra pelo colono português, mas que os nossos gloriosos combatentes da liberdade da pátria, correram com eles numa sangrenta guerra que durou onze anos; deixaram no riquíssimo acervo de ditados populares, locuções e expressões corrente daquele país, e que podiam servir no dia-a-dia dos políticos guineenses, em particulares dos do PAIGC, de forma a não cometerem erros básicos e fatais para a república da Guiné-Bissau e o seu povo. Encerram em si próprios tal sabedoria e não os seguiram de forma mais intensa e permanente.

O mais sensato e avisado será “ PARA BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA”. O PAIGC, através dos dirigentes deste partido, falam… não apenas falar em demasia, pois nos já compreendemos a vossa mensagem.

Os dirigentes do PAIGC, ora falando do “ Acordo de Conacri”, eles clamam mais os seus planos de futuro, permitindo ao presidente José Mário Vaz se antecipe, fazendo a direcção do partido a que pertencia e que o apoio, se sentir prejudicado pela nomeação do actual primeiro-ministro do país.

Os dirigentes do PAIGC falam demais, das circunstâncias do passado do partido, no contexto totalmente diferente da situação actual, perante os ouvidos do povo que se apressam a reproduzir o que foi dito no “ Acordo de Conacri”, muitas vezes de forma deturpadas e ampliada, o que leva muitas vezes equívoco insanáveis que os prejudicam.

Ora, se os dirigentes do PAIGC não podem optar por silêncio asceta, é impossível de alimentar neste tempo de desespero da direcção e que esta a tornar cada vez mais um estranho no meio dos militantes e do povo guineense. Excluído na arena governamental por erros próprios. O segredo seria para eles então, falarem pouco e ouvir mais.

Dito isto, não se percebem, que tendo prejudicado o povo guineense durante 40 anos a esta parte. O PAIGC venha estes dias, depois de humilhar o povo guineense na assinatura do “acordo de Conacri”, continuam a falar mais, criando uma onda de pressão psicológica e animosidade contra povo e o presidente da república, José Mário Vaz, que eles nos apresentou nos últimos eleições como pessoa da confiança do PAIGC.

Sabemos bem, que José Mário Vaz, depois de ter sido eleito sob proposta do PAIGC e tomando posse como presidente, deixou de poder pertencer ao PAIGC ou qualquer outro partido, para se poder representar a nação guineense. COMO PODE O PAIGC, VIR AGORA COM “ A RETIRADA DE APOIO POLÍTICO AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, JOSÉ MÁRIO VAZ?

Como partido, a me parece que esta em total desespero. Pois, o PAIGC pode até ter razão, mas não tem toda razão.

O povo guineense deve estar atento a aquilo que não foi dito pelo PAIGC, mas pode subentender a intenção dos dirigentes deste partido.

O seu comunicado final é tão absurdo que se presta a todos equívocos. Mais uma vez o PAIGC esta a conduzir o país para um novo 7 de Junho, queira que eu esteja errado.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Guiné-Bissau:Povo i ka lixo biodegradável. Somos recicláveis!

LOGICA MATEMÁTICA DO PAIGC... SI GOVERNANTES I POVO & SI PAIGC I CA POVO!ENTÃO, SI POVO I CA LIXO; LOGO, GOVERNANTES I CA LIXO!  OU ENTÃO SI POVO I CA PIGC, LOGO PAIGC I LIXO! 

Por, C. S. Gomes

Ajudem-me com a minha almofada que até agora não me conseguiu dar as respostas certas:

Eu acho, não tenho a certeza mas, penso mesmo que o JOMAV antes de se candidatar ao PR, tinha um processo jurídico para responder. Lembro-me que na altura disseram que o mesmo não podia candidatar-se.

 O STJ, disse que não podia. A seguir o que aconteceu, o nosso partido libertador que ainda continua a nos prender, disse: nao! Como não pode se candidatar? Pode, pode porque nós os libertadores vamos fazer com que possa. Vamos sim, porque nós mandamos e desmandamos. Fazemos e desfazemos as leis. (Rompemos) e corrompemos a justiça. Não precisamos da opinião de ninguém. Queremos para o PR o ex Ministro das Finanças do glorioso governo de Cadogo que pagava aos 25 dias de cada mês. Este sim, vai ser o nosso, vosso PR é de todos os guineenses, custe o que custar.

 Passado alguns dias...VIVA! Candidato dos 25 já pode avançar com a sua candidatura. Avançou e lá chegou. Chegou la porque o PAIGC quis e ninguém se opôs a isso. Nô canta viva i nô toca palmo! (Ami tudo mbai)...mbai, n'toca, m'buzina...n'faci tudo...hora de vota tchiga n'vota. N'vota, abo (talvez) bu vota e manga de milis utrus vota tam.

 Quase que o PAIGC nos impingiu o JOMAV para ser o nosso presidente e nós lhes ajudamos com o gosto sem dizer não porque, o Libertador não está habituado a ouvir o NÃO de ninguém. Quem diz não aos libertadores, é quase dizer adeus aos teus familiares porque vais à forca. Não têm a capacidade para viver na sociedade onde prevalece a DEMOCRACIA. Porque não vivemos na DITUDURA de uma vez por todas? Uma questão para quem quer responder.

Portanto, Avancemos na crónica do PAICG, espero estar a respeitar a cronologia. Depois dos ganhos e perdas nas eleições, o JOMAV é o nosso e tanto almejado Presidente da República e claro faziam um trio imbatível: Jomav, PR; Domingos, PM e Cassama, P-ANP. Estava tudo uma maravilha. Tínhamos CR7 e Messi mais o Mourinho. Todos no mesmo lado.

A seguir, veio a hora das nomeações para o elenco governativo. Problema kudi...dias cinzentos já se aproximavam...o que é certo é que ja se balbuciava na estrada principal até à fornalha onde tudo ocorre ( Praça dos Heróis Nacionais - Palácio Presidencial e a sede do PAIGC) e para nós que não entramos nesses sítios temos o privilégio de ouvir qualquer coisa no Dias e Dias, fera de bande e muitos mais sítios, porque cada um se vangloria da posse de informações que deviam ser o dito Segredo de Estado.

Mbom...nomea ka nomea, Leba nome ka leba, entra k sai na sedi di PGC ki utrus na presidência pabia é sibi kuma si bu pega ba tam trás de nhu Vaz, hum...bu pudi ba consegui algum kusa...e lá se foram...nomi lebadu, guvernu formadu e...maior parte do POVO, (ouviram?) ficou descontente. Mas, quem ouviu o povo? NINGUÉM. PORQUE NAO INTERESSAMOS A NINGUEM. JA NAO PRECISAVAM DO POVO. AINDA DIZEM QUE O "POVO I KA LIXO"? Os nossos políticos que aplaudimos, aqueles políticos que só conhecem o Zé Povinho aquando das eleições, aqueles políticos que separam, estragam as amizades tratam o POVO COMO LIXO. Sim como LIXO e quando não precisam, DESCARTAM, deitam na lixeira. Mas, cuidado...SOMOS RECICLÁVEIS NAS ELEIÇÕES.

 Pronto...Ao formar o governo, lá foram os ministros que quase 80% indesejados pelo povo, outros cunhadas e cunhados do PM, pessoas que os seus Papás (os M'Ba Luta) exigiram as suas nomeações...( Compromisso de CACHEU. Porquê fazer alianças com os que sabes que depois até vão te pedir a tua vida. O Domingos aliou-se a pessoas a que não devia. Mais vale ser pobre do que vender a própria vida ao diabo. Dignidade acima de tudo!!!!!!!) Há princípios vitais que devemos preservar mas, na Guiné ja sabemos como a coisa funciona. Todos querem ser ministro e depois o céu é o limite...DG>PM>PR!!!!!!! Não existem retrocessos na Guiné.

Lá se passaram os dias e a coisa passou. Passou para o POVO. Pabia nô oredja curtu... Depois, vieram os murmúrios de que há crise. PR parece estar com problemas com o PM. Mas depois diziam sempre que não havia... mas DEPOIS:
- O Baciro ( o super ministro, o 2° no governo e no PAIGC demitiu-se porque já não era de confiança (falado kuma el k ta carga i leba, i Leba i tissi)
- até que um certo dia....o Cassamá que quase chegou de rastos à ANP....aos desmaios e ataques sobre ataques e nadando em mar de lágrimas....então Sr. Presidente, o que se passa? E ele...o PR vai derrubar o governo!!!!! Tchapa de Bissau! Fasi kantu???!!!!! Gossi k nô na secal li tok i sedu kam.....e cumpriu-se....foram horas a fio na ANP. Insultos intermináveis em directo à pessoa do PR.

 Horas depois o PR disse que não ia derrubar o governo... Enganem-se! Passado algum tempo (minutos ou horas)... BOMBA!... GOVERNO KAI RUSS!

- O Judas, é nomeado PM. É nomeado por parte do nosso PR dos 25, sem perguntar a ninguém pois era o todo poderoso, alto mastrado ( ou i kuma ki ta tchamadu propi) do país.

Mbom....batimento kudi...Era dos "batimentos" dos governos.  Instalou-se a verdadeira guerra sem armas na Guiné.

 Luto na Cuntum.

 Muntrundade de homis de calsa kunsa. Kada kim na luta pá si pom di kada dia, kada kin na luta pá si djanta...

 Até hoje estamos a viver o derrubar e o formar de novos governos. Um ciclo. Uma guerra entre JOMAV E DSP.

Os guineenses mostraram-se fracassados e à beira do abismo. Incapazes de resolver os próprios problemas. Desde então já foram inúmeras vai-vens de altas figuras da Costa Ocidental que não resultaram em nada até que chegou o Milagroso, o Mal-entendido Acordo de Conacri!

 Foram a Conacri, acordaram as coisas, assinaram e agora querem voltar atrás?

Tenham paciência que não estamos a fim dos vossos problemas.

 DIGAM BASTA SEM TENDÊNCIAS, RECLAMEM OS DIREITOS INERENTES A QUALQUER POVO. Na realidade:

 POVO I KA LIXO!

 BASTA, BASTA, BASTA... JOMAV, DSP, CIPRIANO… NÓS, O POVO, NAO VOS QUEREMOS!

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Perante o silêncio do Presidente da República da Guiné-Bissau, que se confunde com a falta de soluções, ao abrigo das suas competências constitucionais

Por,  Fernando Casimiro

Perante o silêncio do Presidente da República, que se confunde com a falta de soluções, ao abrigo das suas competências constitucionais, para a resolução da crise, e quando a CEDEAO emitiu um comunicado oficial anunciando uma nova missão de mediação à Guiné-Bissau, amanhã, 05.11.2016, para lá de tudo quanto já escrevi sobre esta crise política guineense, não posso deixar de insistir na questão fundamental para se ultrapassar a crise, ou seja, o desbloqueio do Parlamento.

Para que o poder possa ser devolvido ao PAIGC, partido vencedor das eleições legislativas de 2014, com 57 Deputados, ou seja, com uma maioria absoluta, é imperativo que o PAIGC GARANTA que tem até ao presente, essa MAIORIA ABSOLUTA.

A questão que todos sabemos responder até aqui é que de facto, o PAIGC teve, independentemente do chumbo do seu Programa de Governo no Parlamento a 23.12.2015, uma maioria absoluta na configuração parlamentar, ou seja, na Assembleia Nacional Popular.

Uma maioria que se mantinha, independentemente do chumbo do seu Programa, consequente da abstenção de 15 dos seus Deputados.

Ao invés de tirar ilações da abstenção dos 15 Deputados do seu grupo parlamentar, e por via disso, encetar consultas e debates internos, no sentido de congregar os 15 Deputados nos compromissos e objectivos do partido, o PAIGC decidiu agir de forma radical e impiedosa, expulsando-os do partido, mas, também, e numa acção ilegal e inconstitucional, por ter seus dirigentes a dirigir a Presidência da Mesa do Parlamento, bem como a maioria que dirige a Comissão Permanente da Assembleia Nacional Popular, enquanto Deputados, fez com que aos 15 Deputados que se abstiveram na votação do Programa do Governo fossem retirados os mandatos para os quais tinham sido eleitos nas listas do PAIGC.

Desde então, a Assembleia Nacional Popular passou a agir não como um órgão de soberania ao serviço do Povo, mas como uma sede partidária ao serviço do PAIGC.

Assistimos a disputas políticas e jurídicas desde então, sendo que, o Supremo Tribunal de Justiça, goste-se ou não, concorde-se ou não, decidiu, pela reintegração dos 15 Deputados na lista de Deputados eleitos nas eleições legislativas de 2014.

Se não foram reintegrados no grupo parlamentar do PAIGC e porque não compete ao Supremo Tribunal de Justiça essa decisão, mas sim ao próprio PAIGC e aos 15 Deputados em causa, como dizer que o PAIGC continua a ter a maioria absoluta conquistada aquando das eleições legislativas de 2014?

Tudo o que se seguiu até aos dias de hoje, todos sabemos.

Sabemos por exemplo que o PAIGC ficou com 42 Deputados, ao invés dos 57 conquistados nas urnas e que o PRS manteve os seus 41 Deputados.

Sabemos igualmente que face ao bloqueio no parlamento, o PRS decidiu negociar com os 15 Deputados, para garantir ao Presidente da República que tinham uma solução governativa que seria viabilizada em função de uma maioria sustentada no Parlamento, dos seus 41 Deputados mais os 15 Deputados que deixaram de pertencer ao grupo parlamentar do PAIGC mas que não deixaram de ser Deputados, face ao Acórdão do STJ que lhes restituiu os mandatos retirados ilegal e inconstitucionalmente pela Comissão Permanente da ANP.

Se estamos a falar da resolução da crise, ignorando a necessidade de esclarecer se o PAIGC está disposto, de boa-fé, a reintegrar os seus 15 Deputados, para voltar a ter a tal maioria absoluta conquistada nas urnas em 2014, como podemos insistir na devolução do poder ao PAIGC?

Desde a assinatura do Acordo de Conacri, o PAIGC conseguiu reintegrar no partido os 15 dirigentes e Deputados expulsos?

Como pode o PAIGC afiançar ao Presidente da República que tem uma solução governativa que será viabilizada no Parlamento, quando tem, legalmente, até ao presente momento, apenas 42 Deputados, num universo de 102, o que não constitui maioria, para além de, o PRS e os 15 Deputados não inscritos em nenhum grupo parlamentar, continuarem a manter o acordo de governação sustentado por uma maioria parlamentar consequente da perda de mandatos do PAIGC e que permitiu a nomeação do Baciro Djá como Primeiro-ministro?

O que é que constatamos para uma aprendizagem com os erros cometidos entre os 6 pontos do Acordo de Bissau e os 10 pontos do Acordo de Conacri, para hoje termos uma melhor percepção de como solucionar a crise?

Constatamos que é inconstitucional ser o Presidente da República a propor nomes para o cargo de Primeiro-ministro e com o agravante de o nomeado ter que ser pessoa de confiança do Presidente da República. Este ponto constante do Acordo de Conacri, deve ser pura e simplesmente eliminado.

Constatamos que o Presidente da República que também é parte da crise política, apenas deve e tem que continuar a incentivar a busca de soluções sustentadas para a resolução da crise, com base na Constituição e nas Leis da República, já que é ele o Garante da Constituição, sensibilizando todas as partes para a necessidade de um diálogo promotor de consensos, de boa-fé, da restauração da confiança entre irmãos, visando apenas e só, salvaguardar o Interesse Nacional, quiçá, servir a Guiné-Bissau e os Guineenses.

Constatamos que o consenso não deve sobrepor-se à Constituição e às Leis da República, quando não houve até agora nenhuma ruptura constitucional ou da legalidade democrática. Apelaríamos a um consenso face a uma situação atípica de ruptura da legalidade democrática e constitucional, com o fito de se retomar a dita legalidade democrática e constitucional, com base na Constituição e nas Leis da República.

Constatamos que o consenso que se pretende e faz sentido, é a necessidade de todos se sentarem à mesma mesa, olhos nos olhos, discutirem numa perspectiva de diálogo positivo e construtivo, com base no que está regulado na Constituição e nas Leis da República, para que a crise seja ultrapassada.

Se optarmos pelo consenso que desvirtua e desrespeita a Constituição e as Leis da República, teremos problemas logo a seguir, porque a Constituição e as Leis não podem ser interpretadas com base na conveniência, mas sim, na universalidade interpretativa da Lei, tendo em conta a afirmação do Estado de Direito e democrático.

Se o PAIGC conseguir negociar com os seus 15 ex-dirigentes e Deputados da Nação, reintegrando-os no seu grupo parlamentar, creio que o próprio PRS facilitaria tal iniciativa, em nome do Interesse Nacional, o que se traduziria no desbloqueio do Parlamento, quiçá, na viabilização da acção governativa e na retoma funcional das instituições do Estado que não só o Parlamento.

Conseguindo a reconciliação interna e a garantia de ter de novo 57 Deputados no Parlamento, o Presidente da República não teria nenhuma legitimidade para recusar ao PAIGC a indicação de um Primeiro-ministro.

O PAIGC poderia voltar a promover a inclusão governativa se assim o entendesse e aqui trata-se de uma questão de consenso que não fere, não viola, não contraria a Constituição nem as Leis da República, convidando o PRS e os demais partidos com ou sem assento parlamentar a fazerem parte do Governo.

Se o PAIGC não cumprir com a sua parte do Acordo de Conacri, não faz sentido que insista na indicação de um nome para o cargo de Primeiro-ministro, pois sem a sua reconciliação interna, que garanta o regresso e a reintegração dos seus ex-dirigentes, sobretudo no seu grupo parlamentar, continua a ter apenas 42 Deputados ao invés dos 57 inicialmente confirmados aquando das eleições legislativas de 2014.

Constatamos que o Presidente da República mantém a sua decisão de não dissolver o Parlamento. Podemos concordar ou discordar da sua decisão, cientes de que há prós e contras, porém, entre dissolver e não dissolver o Parlamento, face à realidade presente e ao estado da crise, qualquer que fosse a decisão do Presidente da República, seria o actual governo em funções a gerir a governação até à realização de novas eleições, que poderiam ser realizadas apenas quando estivessem reunidas as condições financeiras, técnicas e operacionais, para tal, independentemente do prazo estabelecido na Lei Eleitoral.

Como é que podemos falar na implementação dos 10 pontos do Acordo de Conacri, com base num suposto consenso que afinal, não chegou a existir, face às diversas interpretações e consequentes desencontros de posicionamentos dos envolvidos e participantes?

Constatamos que o que continua a fomentar a crise política é o bloqueio no Parlamento e com base no Acordo de Conacri, o PAIGC e o grupo dos 15 Deputados e ex-dirigentes do referido partido são a chave para a solução da crise. Não está no PRS e muito menos no Presidente da República, a solução para a reintegração dos 15 ex-dirigentes do PAIGC no PAIGC.

Cabe ao PAIGC, à sua estrutura de liderança, assumir uma postura de humildade, de reconhecimento dos erros até aqui cometidos, para aproveitar esta oportunidade, que lhe é concedida no sentido de reivindicar legalmente o poder conquistado nas urnas, caso consiga de facto, voltar a confirmar que detém a maioria absoluta de mandatos na Assembleia Nacional Popular.

Sem isso, nenhum Acordo desbloqueará o Parlamento e nenhuma solução governativa terá legitimidade para substituir o actual governo, que foi nomeado depois de o Presidente da República ter auscultado os partidos políticos com assento parlamentar, tal como estabelece a Constituição da República e de ter recebido garantias do PRS em como para além dos seus 41 Deputados, contava com o apoio dos 15 Deputados não inscritos em nenhum grupo parlamentar, para viabilizar a governação, através da legitimação no Parlamento, face à configuração parlamentar que advinha dessa aliança.

O PAIGC já devia ter feito a sua parte, quer para a reconciliação com os seus 15 ex-dirigentes, mas também, para uma harmonização com o PRS, a bem do apaziguamento da crise, tendo em conta o sacrifício, o sofrimento e o desespero do povo guineense.

Para quê tanta intransigência, quando ao invés de se estar a defender o Interesse Nacional, está-se a prejudicar o Interesse Nacional?

Que análises, que reflexões, que propostas de soluções não foram apresentadas por filhos da Guiné-Bissau, para o fim desta crise?

Vamos todos aceitar e reconhecer (povo, políticos, governantes e Comunidade Internacional), que é preciso, de facto, dizer BASTA?!

Há ou não coragem para centrar o essencial da crise no desbloqueio do Parlamento e não na nomeação de um novo Primeiro-ministro?


Positiva e construtivamente.