Ministro da Economia e Finanças da Guiné-Bissau
Estava um dia quente e abafado. As nuvens
húmidas do final do mês de Junho haviam dispersado no céu em franjas brancas
como algodão doce e o calor sufocante do início da tarde convidava para um
mergulho nas águas de um mar tépido e calmo.
Saí de casa no meu Ford Edge 2009 e dirigi-me
para um gabinete médico situado a pouco menos de quinhentos metros, no mítico
bairro de Mermoz, em Dakar.
Quando o meu condutor parou completamente a
viatura, desci do carro, atravessei precipitadamente o pequeno portão metálico
esverdeado e entrei no edifício, após tocar levemente a campainha.
– É para a consulta com a Dra Silvye – disse em
voz baixa à recepcionista.
Ela mandou-me sentar, após ter-me identificado
nos ficheiros. Prostrado num sofá na sala de espera, pus-me a folhear as
revistas espalhadas por cima da mesinha à minha frente, de vez em quando
levantando a cabeça para olhar para a televisão afixada num canto da parede.
Alguns minutos depois, a recepcionista fez-me
sinal para me dirigir ao consultório da Dr.ª Silvye. Levantei-me e dei alguns
passos. Já no meio do corredor, um sincrónico clique do meu iphone 4 despertou
a minha atenção. Parei, hesitando se devia logo ler a mensagem ou deixar para
depois. Uns cinco segundos depois, carreguei no botão para iluminar o écran e
vi a mensagem.
Estremeci.
Num instante, senti a adrenalina a atravessar o
meu corpo. A ansiedade é uma desordem difícil de controlar. É óbvio que eu
sabia que aquela mensagem estaria a caminho, podendo chegar a qualquer momento.
Ainda assim, o meu coração deu um ligeiro pulo de susto quando li o texto:
DSP
TOMADA DE POSSE DO GOVERNO AMANHÃ À TARDE.
Já dentro do consultório, enquanto a Dra Silvye
me ajeitava suavemente o pescoço diante de um sofisticado aparelho,
preparando-se para medir a minha tensão ocular, eu pensava na profunda mudança
na minha vida a partir daquele momento.
Ia largar um emprego que me fazia feliz. O que
quer que se diga, trabalhar no Banco mundial é uma experiência fabulosa. Não
conheço nenhuma outra organização no mundo com tamanha concentração de
talentos, onde se aprende todos os dias e onde o conhecimento é a coisa mais bem
partilhada. Além disso, o emprego dava-me uma confortável estabilidade
financeira.
Mas o que mais me afligia é que não poderia
levar a minha família para Bissau. Sentiria falta do abraço caloroso dos meus
filhos quando chegava à casa ao início da noite e o Denzel, o Geovani e a Mamy
se apressavam para me despir ainda na sala, cada um depois levando uma peça de
roupa para o quarto lá em cima. Todavia, a decisão estava tomada e não havia
mais voltas a dar. No dia seguinte, peguei o primeiro voo e aterrei em Bissau.
Eis que passaram trezentos e sessenta e cinco
dias desde aquela tarde em que recebi o sms no meio de um consultório.
Trezentos e sessenta e cinco dias durante os quais participei num esforço
complexo de governação do país.
Olhando as coisas em retrospectiva, em que
estou a pensar?
Aconteceram várias coisas e vivemos muitas
peripécias. Mas penso que dois fenómenos estão sobretudo a definir a nossa
sociedade hoje – o restabelecimento do contrato social e a mudança do debate
público.
Pouco a pouco, a crença de que o Estado é capaz
de ser um provedor de bens públicos está a instalar-se. Os salários de todos os
servidores públicos, incluindo o pessoal das representações diplomáticas, estão
a ser pagos regularmente. O país está a honrar cabalmente as suas obrigações de
pagamento do serviço da dívida externa. As casas das famílias em Bissau têm luz
eléctrica e água canalizada quase vinte e quatro horas por dia. A iluminação
pública chegou a 28 vilas do interior, dando vida nocturna a essas localidades.
O ano lectivo 2014/2015 iniciou-se a tempo e vai concluir a tempo, sem grandes
sobressaltos e com os programas cumpridos.
Além disso, as estradas de Bissau estão a ser
reabilitadas. Graças em parte a políticas públicas correctas, os produtores de
castanha de caju desfrutaram de preços recordes este ano. Estima-se que
globalmente os seus rendimentos possam atingir este ano 70 mil milhões de FCFA,
ou o equivalente a metade do Orçamento Geral do Estado da Guiné-Bissau em 2015.
O efeito combinado de tudo isto é que o país
crescerá entre 4,5% e 5% em 2015. Muitas destas coisas não aconteciam há muito
tempo ou nunca antes tinham acontecido. Progressos também estão a ter lugar em
áreas intangíveis. Algumas reformas, c0mo a reforma das forças de defesa e segurança
e a reforma da fiscalidade, foram iniciadas, embora os seus resultados só serão
visíveis dentro de dois a três anos.
O segundo fenómeno é que o centro de gravidade
do debate público está progressivamente a mover-se de:
´as-coisas-não-estão-a-ser-feitas´ para
´as-coisas-podiam-ter-sido-mais-bem-feitas`. Isto é fantástico, pois mostra que
o país está a passar da paralisia para a acção. As pessoas estão a exprimir
livremente as suas opiniões. Devemos encorajar esta tendência, apelando,
contudo, a que se exprimam com respeito e elegância.
Mas não tenho ilusões. As coisas não têm sido
fáceis. O que fizemos é muito pouco diante daquilo que há por fazer. No meio de
tudo isto, cometemos erros, e por vezes, não estivemos à altura das
expectativas. Sei que, involuntariamente, ainda havemos de cometer erros. O
progresso não é um processo linear. Ele é feito de avanços e recuos. O caminho
a percorrer é espinhoso; as montanhas a escalar são agrestes. Nesta caminhada,
estamos constantemente a experimentar uma mistura de emoções antagónicas –
satisfação, frustração, esperança, dúvida, celebração, etc.
Algumas coisas me têm frustrado. Tenho visto
pessoas dedicarem-se apaixonadamente àquilo que é absolutamente supérfluo e
insano. Gostava de ver os meus concidadãos a ocuparem-se mais das coisas que
sabem fazer e a falarem menos das coisas de que não sabem; gostaria de ver
algumas pessoas a pensarem três ou quatro vezes antes de espalharem uma mentira
aos quatro ventos, causando mal a pessoas de bem. É preciso perceber uma coisa.
A verdade e a mentira falam em tons diferentes. A verdade não precisa falar
alto. Até o silêncio basta-lhe. A mentira, ao contrário, precisa gritar para se
fazer ouvir. Por isso, acaba sempre por dominar o ruído de fundo.
Mas há também muitas coisas que me deixam
feliz. Tenho sido inspirado por um leque de pessoas talentosas que eu tenho
encontrado, algumas delas ainda muito jovens e promissoras. Tenho tentado
aprender com a humildade das nossas populações que se contentam com pouco e
vivem com dignidade.
Estes exemplos têm-me lembrado que na minha
posição é preciso permanentemente verificar se os nossos valores fundamentais
(rigor, integridade e humildade) estão vivos. É o que tenho tentado fazer todos
os dias. Não sou perfeito, nem pretendo ser. Porém, tal como muitos que tenho
conhecido, busco constantemente a excelência. Motivado pelos seus exemplos,
levanto-me diariamente de manhã com uma enorme vontade de trabalhar mais e
melhor.
Sinto orgulho de ter participado em alguns
momentos marcantes deste processo. A preparação do Plano Estratégico 2015-2025
Terra Ranka foi um desses momentos. Hoje, a Guiné-Bissau dispõe de uma visão
clara de desenvolvimento amplamente sufragada pelos Guineenses.
Por outro lado, Bruxelas teve um significado
particular para mim. Nos meus ombros recaía a enorme responsabilidade de
apresentar o Plano Estratégico à comunidade internacional naquele inesquecível
dia 25 de Março de 2015. Medindo o dever, eu vivia o momento com paixão.
Surpreendentemente, estava a controlar bem o nervosismo durante os três dias
que precederam o evento.
Em Bruxelas, costumávamos almoçar num
restaurante Indiano, na rua que separa o hotel Silken Berlaymont, onde
estávamos alojados, da sede da União Europeia. No dia 24 de Março, durante o
almoço, senti de repente medo de comer. A comida Indiana é muito picante. E eu
gosto de comida picante. Porém, um mau pensamento começou a invadir a minha
mente. E se eu comer o picante e o meu intestino se puser a resmungar no dia
seguinte?
E se eu me levantar no dia seguinte com dor de
cabeça ou com febre? No final do almoço, deixámos o restaurante e começámos a
caminhar de volta ao hotel. A certa altura, DSP tocou-me levemente no ombro e
disse-me para olhar para o alto lá ao fundo, indicando com a mão esquerda.
Levantei a cabeça e vi aquela imagem. A bandeira da Guiné-Bissau estava a
flutuar, sozinha, na sede da União Europeia. O sangue arrepiou-me até às
profundezas da minha alma.
No dia seguinte, nada do que eu temia
aconteceu.
A reunião foi um sucesso. O principal resultado
de Bruxelas não é a substancial soma de dinheiro que foi prometida. O principal
resultado de Bruxelas é o respeito que o país voltou a ganhar no seio da
comunidade internacional. Enquanto Guineense, sinto muito orgulho nisso.
Hoje, apesar das muitas peripécias, quero
dizer-vos que acredito sinceramente no futuro do nosso país. Estou confiante de
que, enquanto Nação, podemos juntos triunfar, porque a força centrípeta daquilo
que nos une é bem maior do que a força centrífuga daquilo que nos separa.
Ao entrarmos no segundo ano da governação,
quero agradecer a Deus por me dar saúde para continuar a caminhar.
Agradeço à minha esposa pelo seu apoio
indefectível. Agradeço aos meus filhos pela sua paciência. Agradeço
particularmente à Mamy por ter aceite graciosamente prescindir das minhas
cómicas histórias sobre Fantôme Robot, na hora de ir para a cama.
Agradeço a todos os meus amigos pelo vosso
apoio e pelas vossas orações.
Que Deus vos abençoe.
Bissau, 30 de Junho de 2015
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