segunda-feira, 26 de junho de 2017

Comunicado à Imprensa da Representação do Partido de Renovação Social no Reino Unido


Realizou-se no sábado, dia 17 de Junho de 2017, em Peterborough, sob Presidência do Professor Dr. Adelino Biague Na Dum, Presidente da Representação do Partido de Renovação Social no Reino Unido, e também tomaram parte na mesa os seguintes ilustres senhores: Eugénia Damas, Bonifácio da Silva, Ildo Correia e Elmer Barbosa, na sua segunda reunião geral no qual participou a maioria dos seus membros.

Nessa reunião foi apresentado o relatório anual de actividade do partido, o calendário anual de trabalho para o ano em curso e por último discussão sobre aprofundamento do debate político através de reflexão sobre o papel e actuação do Partido da Renovação Social na actual legislatura.

Esta referida apresentação do relatório de actividade, surge na sequência de tornar o trabalho da representação mais transparente perante os seus militantes e simpatizantes. Permitindo-os inteirar detalhamento de todos os projectos relacionados com as actividades da representação do partido no Reino Unido.

Também foi apresentado o calendário anual de actividade da representação para o ano 2017/2018, que vai possibilitar os membros a saber do plano estratégico do programa do partido.


Finalmente foi debatida a actual situação política com o foco central na atuação e propostas do PRS perante a mesma. O referido painel contou com a participação do Deputado da Nação, Dr. Joaquim Batista Correia, a quem agradecemos pela sua colaboração e brilhante alocução.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ser humilde não é ser submisso!

Às vezes, confundimos as coisas e achamos, por exemplo, que ser humilde é a mesma coisa que ser submisso. Mas não, não é, mesmo que ambas as palavras sejam frequentemente empregadas como sinônimos.

Uma pessoa humilde não busca ficar no centro das atenções, não por medo ou timidez, não por se sentir inferior, mas por entender que isso não é importante, por saber que ninguém precisa estar no centro para ser centrado. E a pessoa humilde pode até abrir mão de expressar sua própria opinião, não por achar que ela não tenha valor, mas por entender que o que ela pensa, naquele momento, talvez não seja tão importante ou por perceber em certas situações que é mais prudente se calar.

Ser humilde é ser modesto e ter consciência das próprias limitações, é aceitar-se e aceitar os outros e viver de forma simples, natural e despretensiosa, sem vaidade, sem se corromper por valores estranhos e compreendendo que não é melhor que ninguém. Sim, ser humilde é principalmente isso: compreender que não se é melhor que ninguém, pois ninguém neste mundo é melhor que ninguém. Então, a pessoa humilde sabe que também o outro, qualquer outro, não é melhor que ela. E aqui está a principal diferença entre a humildade e a submissão.

A pessoa submissa não se valoriza, acredita não ter os mesmos direitos que (determinadas) outras pessoas, acha-se fraca perante aqueles que vê como mais fortes, permite ser desprezada porque ela mesma se despreza e abre muitas vezes mão de seu lugar neste mundo por se sentir inferior, por acreditar ser alguém de segunda categoria.

Enquanto a humildade é caracterizada por uma forte aceitação de si e dos demais como seres com o mesmo valor, a submissão é marcada pela rejeição de si mesmo e uma supervalorização do outro. Enquanto, então, a humildade é o gesto de amor próprio e ao próximo, a submissão é um gesto de negação de si mesmo, de alguém que não se ama e não se respeita.

Ao ter consciência das próprias limitações, a pessoa humilde sabe também onde estão os limites do outro, não permitindo que ele vá longe demais e não aceitando ser menosprezada, maltratada, humilhada por ninguém. Já a pessoa submissa não conhece esses limites ou talvez até conheça, mas não acredita ter o direito de impô-los, aceitando o menosprezo, os maus-tratos e a humilhação, submetendo-se até mesmo a um rebaixamento moral.

Portanto, está enganado quem acredita que está sendo humilde ao aceitar ser pisado por quem quer que seja, pois isso nada tem a ver com humildade. Isso é submissão.

Outra diferença entre as duas coisas é que a pessoa humilde é humilde sempre, independentemente da pessoa com quem interage. Ela será humilde ao falar com o chefe, com o prefeito, com o Presidente da República e será igualmente humilde ao falar com um empregado, com o zelador do prédio ou com o desabrigado que lhe pede esmola na rua. Novamente: ela entende que todas as pessoas (todas mesmo!) têm o mesmo valor. Já a pessoa submissa costuma se rebaixar diante daqueles que acredita que são mais fortes que ela, mas tenta humilhar alguém que acredite ser mais fraco. Ela aceitará então ser maltratada por seu chefe, mas maltratará o zelador do prédio ou qualquer um que julgue ser inferior.

Para mim, humildade é uma virtude, que devemos incentivar e alimentar. Já a submissão é um desvio, um defeito que precisamos corrigir o mais rápido possível. A humildade liberta, a submissão aprisiona.

Devemos sim nos sentir pequenos, pois somos pequenos, mas diante da criação, do universo, da vida. Mas jamais devemos nos diminuir perante qualquer outra pessoa, já que, na essência, somos todos iguais.


Gustl Rosenkranz

O medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo

Quando a dominação colonial se impõe dentro duma terra a primeira preocupação dessa dominação é barrar o caminho à cultura desse povo. Por isso mesmo consideramos (e isso verificou-se, por exemplo, no processo de desenvolvimento de nacionalismo em África, quando se começaram a cultivar poemas e danças africanas para contestar a cultura do país dominador) que o nosso povo, ao pegar em armas para se bater pela sua libertação, estava em primeiro lugar manifestando a sua recusa em aceitar uma cultura estrangeira. Portanto, essa luta é necessariamente um ato cultural, ato cultural que implica essa conclusão, demonstração clara de que temos uma história nossa na qual fomos retirados pelo colonialismo, e estamos decididos a continuar essa história - Amilcar Lopes Cabral

Há no homem um desejo imenso pela liberdade, mas um medo ainda maior de vivê-la. Algo parecido disse Dostoiévski, ou talvez eu esteja dizendo algo parecido com o dito pelo escritor russo.

No entanto, como seres significantes que somos, analisamos as coisas sempre a partir de uma determinada perspectiva e, assim, passamos a atribuir-lhes valor. Dessa maneira, até conceitos completamente opostos, como liberdade e escravidão, podem se confundir ou de acordo com o prisma de quem analisa, tornarem-se expressões sinônimas, como acontece no mundo distópico de George Orwell, 1984, em que um dos lemas do partido – “Escravidão é Liberdade” – é repetido à exaustão.

Não à toa, as boas distopias têm como grande valor predizer o futuro. E em todas elas – 1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451, Laranja Mecânica – há um ponto em comum: a liberdade dos indivíduos é tolhida e, consequentemente, convertida em escravidão. No entanto, através de mecanismos sócio-políticos a escravidão é ressignificada como liberdade, de modo que mesmo tendo a sua liberdade cerceada, os indivíduos entendem gozarem plenamente desta.

Nas histórias supracitadas, embora a maior parte da população esteja acomodada e aceite com enorme facilidade absurdos, existem indivíduos que se permitem compreender as suas reais situações e ousam lutar contra a ordem estabelecida. Esse processo é, todavia, extremamente doloroso, uma vez que é muito mais fácil se acomodar a enfrentar a realidade e todas as consequências dolorosas que enfrentamos invariavelmente quando decidimos sair da caverna, para lembrar Platão.

Posto isso, há de se considerar que ser verdadeiramente livre requer a responsabilidade de encarar o mundo sem fantasias, ou seja, tal como ele é. Dessa forma, existe no homem grande suscetibilidade a aceitar o irreal como real, a fantasia como verdade, a Matrix como o mundo real. Sim, Matrix é um grande exemplo do medo que possuímos de encarar a realidade.

No personagem de Cypher (Joe Pantoliano) encontramos o maior expoente desse comodismo, já que sendo a realidade um mundo destruído, um caos constante, é muito melhor viver na Matrix, onde ele “pode ser o que quiser”, ainda que não passe de uma grande mentira.

Em outras palavras, Cypher representa a ideia de que sendo a realidade algo tão assustador, a ignorância é uma benção, pois sendo ignorante, pode-se comprar mentiras como verdades facilmente, bem como, aceitar a Matrix como realidade e a escravidão como liberdade.

As realidades apresentadas no mundo das artes (ficções, que ironia), refletem a nossa própria realidade, em que, assim como Cypher, temos preferido viver vidas fantasiosas, cercadas de superficialidade e aparências, determinadas pelo hedonismo da sociedade de consumo e, consequentemente, o nosso egoísmo ganancioso buscando galopantemente realizar todos os desejos que impedem de acordarmos de um sonho ridículo.

Apesar de tudo isso, pode-se considerar que de fato é melhor ser um escravo feliz do que um ser livre, triste, inconformado e amedrontado. No entanto, a problemática ganha corpo na medida em que se entende que há coisas que só podem ser feitas sendo o sujeito livre, uma vez que a gaiola é sempre limitadora, sobretudo, aos desejos mais intrínsecos e, portanto, mais latentes e verdadeiros no ser.
Atendendo aos votos formulados pela União das Comunidades de Cultura Portuguesa no congresso realizado em Lisboa sob os auspícios da Sociedade de Geografia;

Considerando a necessidade de fomentar os esforços científicos no sentido de salvaguardar a herança cultural portuguesa das comunidades dispersas pelo mundo;

Usando da faculdade conferida pelo n.º 3.º do artigo 109.º da Constituição, o Governo decreta e eu promulgo o seguinte:

Artigo único. São aprovados os estatutos da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, que baixam assinados pelos Ministros dos Negócios Estrangeiros e da Educação Nacional.

Publique-se e cumpra-se como nele se contém.
Paços do Governo da República, 6 de Fevereiro de 1965. - AMÉRICO DEUS RODRIGUES THOMAZ - António Oliveira Salazar - Alberto Marciano Gorjão Franco Nogueira - Inocêncio Galvão Teles.


CAPÍTULO I
Instituição, fins e sede
Artigo 1.º A Academia Internacional da Cultura Portuguesa é dotada de personalidade jurídica para os fins da sua instituição e rege-se pelos presentes estatutos.

Art. 2.º Os fins da Academia são os seguintes:
a) Fomentar os esforços tendentes à investigação, inventário e sistematização das tradições e dos padrões culturais portugueses radicados fora do território português;

b) Fomentar os esforços tendentes à identificação e estudo das comunidades filiadas na cultura portuguesa e radicadas fora do território português;

c) Fomentar os esforços tendentes à investigação da expansão da cultura portuguesa no Mundo;

d) Promover a publicação sistemática em língua portuguesa ou em língua estrangeira da documentação e dos estudos relacionados com os fins indicados nas alíneas anteriores;

e) Cooperar com os organismos que tenham finalidades análogas, em qualquer parte do Mundo.

Art. 3.º A Academia Internacional da Cultura Portuguesa tem sede em Lisboa, na Sociedade de Geografia, que assegurará a secretaria-geral da Academia.

CAPÍTULO II
Organização
Art. 4.º Os académicos agrupam-se nas seguintes categorias:
a) De número;
b) Correspondentes;
c) De mérito.
Art. 5.º Os académicos de número serão limitados a 40, dos quais 15 serão de nacionalidade portuguesa.

§ Único. Os académicos de número serão sempre escolhidos de entre os correspondentes que tenham, pelo menos, três anos de actividade académica.

Art. 6.º Os académicos correspondentes serão em número não superior a 60, dos quais 20 serão de nacionalidade portuguesa, devendo a sua escolha recair em pessoas que tenham dado provas da sua competência pela publicação de importantes trabalhos relacionados com os fins da Academia.

Art. 7.º O título de académico de mérito poderá ser conferido a eminentes publicistas nacionais ou estrangeiros.

Art. 8.º Na eleição dos académicos de qualquer categoria só poderão participar os académicos de número.

Art. 9.º O Chefe do Estado é presidente de honra da Academia.
Art. 10.º Os académicos são obrigados a coadjuvar a Academia em tudo o que lhes incumbe, aceitando os cargos e missões que lhes forem cometidos e encarregando-se da elaboração dos trabalhos que lhes sejam confiados.

Art. 11.º É proibido aos académicos contrariar os fins da instituição; imprimir trabalhos fora das publicações académicas com indicação de provirem da Academia; e criticar trabalhos feitos por encargo da mesma ou a ela apresentados por outros académicos, a não ser nas suas sessões ordinárias.

Art. 12.º São causas de demissão de académico o não cumprimento dos deveres impostos por estes estatutos ou o público e notório mau comportamento moral e civil.

Art. 13.º Considera-se renúncia à situação de académico de número ou de correspondente o facto de não tomar parte ou não mostrar interesse pela actividade da Academia durante três anos ininterruptos, quando o académico não estiver impedido por doença.

Art. 14.º O académico correspondente que passe a académico de número tem obrigação de fazer o elogio do seu antecessor na cadeira que vai ocupar.

Art. 15.º Haverá um presidente e dois vice-presidentes e um secretário-geral, os quais, assistidos de dois vogais, constituirão o Conselho Académico, que terá a seu cargo a administração e a orientação superior da Academia.

Art. 16.º O Conselho Académico, de que só poderão fazer parte académicos de número, cuja residência lhes permita assegurar a gestão administrativa da Academia, será eleito trienalmente pelos académicos daquela categoria.

Art. 17.º A orientação dos trabalhos científicos cabe à assembleia geral, cuja mesa será formada pelo presidente e vice-presidentes do Conselho Académico e pelo secretário-geral.

Art. 18.º A assembleia geral poderá nomear as comissões que julgar convenientes para estudo particular de qualquer assunto.

Art. 19.º Haverá duas publicações académicas de carácter permanente: o Boletim e os Anais.

§ único. O presidente de honra e os académicos têm direito a um exemplar de todas as publicações académicas feitas depois da sua admissão.

Art. 20.º A Academia tem direito ao uso da biblioteca e arquivo da Sociedade de Geografia.

CAPÍTULO III
Disposições gerais e transitórias
Art. 21.º A Academia tem por divisa (ver documento original).
Art. 22.º Os académicos de qualquer categoria gozam de honras e proeminências idênticas às dos sócios das Academias das Ciências de Lisboa e Nacional de Belas-Artes.

Art. 23.º Aos académicos será permitido o uso de insígnias e farda próprias.
§ Único. As insígnias académicas poderão ser usadas com uniformes militares e com quaisquer outras condecorações.

Art. 24.º Os académicos de número, constantes da lista anexa, são considerados os académicos fundadores para os efeitos dos presentes estatutos.

Art. 25.º Para efectivação das disposições destes estatutos haverá um regulamento interno, que será aprovado pelos Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Educação Nacional.

Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Educação Nacional, 6 de Fevereiro de 1965. - O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Alberto Marciano Gorjão Franco Nogueira. - O Ministro da Educação Nacional, Inocêncio Galvão Teles.


Lista dos académicos de número considerados fundadores da Academia Internacional da Cultura Portuguesa

Adriano José Alves Moreira.
António da Silva Rego.
Armando de Freitas Zusarte Cortesão.
Armando Gonçalves Pereira.
Armando Reboredo e Silva.
João da Costa Freitas.
Jorge Dias.
José de Azeredo Perdigão.
José Nosolini Pinto Osório da Silva Leão.
Luís da Câmara Pina.
D. Manuel Trindade Salgueiro.
Virgínia Rau.

Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Educação Nacional, 6 de Fevereiro de 1965. - O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Alberto Marciano Gorjão Franco Nogueira. - O Ministro da Educação Nacional, Inocêncio Galvão Teles.
Assim, por mais que a escravidão seja ressignificada, fantasiada e “transformada” em liberdade, sempre haverá pontos em que o indivíduo sentirá necessidade de alçar voos mais altos, os quais, obviamente, não poderão ser realizados, haja vista a limitação das gaiolas, o que implica a insatisfação, ainda que tardia, da condição escrava em que o indivíduo se encontra.

Sendo assim, constatamos que “O medo de ser livre provoca o orgulho em ser escravo”*, posto que para gozar a liberdade é preciso coragem para se arriscar no terreno das incertezas e da luta. E, assim, temos preferido permanecer na caverna, orgulhosos das nossas sombras, já que lembrando outra vez Dostoiévski – “As gaiolas são o lugar onde as certezas moram”. Entretanto, como disse, mais hora, menos hora, nos enxergamos e percebemos que o que nos circunda é falso, de tal maneira que desejamos sair, correr, voar, ser livres.

O grande problema nisso é que quando se acostuma a viver em uma gaiola, quando se é livre perde-se a capacidade de voar, pois as correntes que nos prendem são criadas pelas nossas mentes, de forma que mesmo fora da caverna, continuamos prisioneiros de uma mente que se acostumou a ser covarde e preferiu acreditar na contradição de que ser escravo era o maior ato de liberdade.


*A frase que dá título ao texto é de autoria desconhecida. Se alguém souber a real autoria, por favor, avise-nos.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Não precisamos de anarquia, e de falsos moralistas na Guiné-Bissau!

Por, Fernando Casimiro

Não queremos nem precisamos de ditadura e de ditadores na Guiné-Bissau!
De igual forma, não precisamos de anarquia, e de falsos moralistas que nunca se pronunciaram contra sucessivos regimes ditatoriais na Guiné-Bissau. 

O poder na Guiné-Bissau, felizmente, ainda não está na rua, pois se assim fosse, teríamos hoje uma tragédia no país.

Vamos todos discordar das muitas decisões do Presidente da República que serviram de incentivo ou complemento para a crise política e exigir, legalmente, do Presidente da República o respeito pela Constituição e pelas Leis da República, enquanto Chefe do Estado e garante da Constituição. Porém, apesar de todos os erros cometidos pelo Presidente da República, saibamos igualmente, mostrar a nossa sensatez, a nossa coerência, a nossa lucidez, enquanto cidadãos honestos, dignos, lúcidos e comprometidos apenas com o Interesse Nacional, para não cairmos igualmente no ridículo de errar, apontando o Presidente da República como único culpado da crise política e social na Guiné-Bissau.

O PAIGC é o epicentro da actual crise política (mas também, do percurso infeliz do nosso Estado ao longo de quase 44 anos de independência) tenha a coragem de reconhece - lo, de afirmá-lo, positiva e construtivamente, para que também se promovam reformas no PAIGC s bem da estabilidade política e da legalidade democrática na Guiné-Bissau.

O actual Presidente da República foi o candidato do PAIGC às eleições presidenciais de 2014.

A Presidência da Mesa da Assembleia Nacional Popular é fruto da vitória eleitoral do PAIGC com maioria absoluta nas eleições legislativas de 2014.

A expulsão de 15 deputados inscritos no grupo parlamentar do PAIGC que culminou na subtracção dos mandatos obtidos por este partido aquando das eleições legislativas de 2014 face ao Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que revogou a perda de mandato dos 15 deputados foi um erro gravíssimo do PAIGC.

A intolerância na busca de soluções de reconciliação interna reforçou a caracterização do PAIGC como sendo Instrumento promotor do absolutismo, da ditadura, e da repressão com base no princípio de um passado não muito distante de que o Partido é o Estado. Não pode ser!

O Estado não é o PAIGC e por isso, não se regula pelos Estatutos do PAIGC.

O Estado é a Guiné-Bissau e somos todos nós, Guineenses, independentemente das nossas opções políticas, religiosas, culturais ou outras!

Todos nós, Guineenses, pessoas singulares, como também, as instituições da República, as entidades colectivas de interesse público ou privado, temos que nos subordinar à Constituição e às Leis da República da Guiné-Bissau.

Nenhum partido político, nenhuma organização, sindical, nenhum movimento cívico, independentemente de todas as razões que lhes possa assistir, devem desafiar, de forma anárquica, a autoridade do Estado através das suas diversas expressões reivindicativas, capazes de pôr em causa a autoridade do Estado.

Os partidos políticos, movimentos cívicos, centrais sindicais e outros que no usufruto dos seus direitos legais e constitucionais ignoram os condicionalismos desses mesmos direitos, através dos deveres legais e constitucionais devem reflectir sobre o conceito de Estado de Direito Democrático.

Há um Estado, com as suas regras estabelecidas na Constituição e nas Leis da República que todos devem respeitar e seguir.

Não se deve proibir uma manifestação pacífica, desde que objectiva nos seus pressupostos, e não colida com o estabelecido na Constituição e nas Leis da República.

A autoridade do Estado não é a autoridade de um indivíduo, ou de grupos de indivíduos. Desafiar a autoridade do Estado falando em nome de um Povo, que não se vê nas manifestações de rua parece-nos abusivo.

Se cada 100 ou 1000 manifestantes reivindicarem as suas exigências em nome de todo um Povo, num país de quase 2 milhões de habitantes, em que é que ficamos?

O PAIGC que foi quase sempre Governo e "Presidente" do país que é a Guiné-Bissau promoveu ao longo de 44 anos a cultura da intolerância que ainda hoje vivemos na Guiné-Bissau.

Todas as práticas repressivas que hoje são denunciadas na Guiné-Bissau provêm do autoritarismo do PAIGC!

Toda a disputa do Poder pelo poder que tem sustentado a instabilidade política na Guiné-Bissau é promovida pelas disputas internas no PAIGC.

A divisão do nosso Povo através da instrumentalização/manipulação, ao longo dos anos é fruto de sucessivas estratégias do PAIGC esse sentido.

Aos nossos jovens, independentemente das suas sensibilidades políticas ou das suas acções reivindicativas, assertivas ou não, importa estudar, analisar e dar a conhecer a nossa visão, em jeito de aconselhamento, não mais do que isso, sobre as suas iniciativas, tendo em conta o Estado de Direito Democrático, que não deve ser apenas lembrado aos políticos e aos governantes.

Qualquer partido político ou coligação de partidos políticos, que esteja a governar, não hesitaria em condicionar os direitos e as liberdades dos cidadãos face igualmente aos deveres dos cidadãos.

O PAIGC ao longo de tantos anos promoveu de tudo, para lá do estabelecido na Constituição e nas Leis da Republica para justificar a autoridade do Estado. É o mesmo PAIGC que uma vez mais e em nome dos seus interesses, recorre aos seus velhos métodos, às suas práticas retrógradas para pôr todo um Povo na desordem.

Chega!

Basta!

Os nossos jovens devem reivindicar mais e melhor Educação; Saúde; Emprego, igualdade de oportunidades de emprego/trabalho.

O actual Presidente da República não vem de nenhuma outra "escola" política que não a do PAIGC...

Se o Povo Guineense continuar a votar no PAIGC, a Guiné-Bissau continuará a afundar-se. O Povo Guineense continuará dividido e desinteressado no desenvolvimento do seu país.

Se continuarmos a perder, enquanto Guineenses, porque o nosso País, a Guiné-Bissau há muito que está a perder, outros povos e outros países, certamente, continuarão a ganhar, à custa da Guiné-Bissau e dos Guineenses.

Não permitiremos isso!

Vamos mudar positivamente a nossa Guiné-Bissau, somos capazes e temos tudo para que assim seja.

Vamos apostar em novos valores, em novas referências políticas.


Positiva e construtivamente. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

E se JOMAV fosse um balanta? E se os balantas começassem agora insultar ele juntar com a sua etnia?

José Mário Vaz, de etnia manjaca, Presidente da República da Guiné-Bissau, nasceu em 10 de Dezembro de 1957, em Calequisse-Cacheu. Estado civil Casado. Um economista de profissão. Membro do Bureau Político do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC)

 
Aqueles que no tempo de Presidente Dr. kumba fizeram este grande mal de discriminação contra os balantas, e sei que entre eles estavam muitos manjacos, a mensagem que eu quero passar são para eles particularmente perguntar se eles todos como etnia se sentem identificados ou não com a decisão do JOMAV neste caso relativamente a possível queda do governo?
Um Português que esteve na Guerra na Guiné uma vez disse assim:

A sorte da Guiné hoje como uma República foi ter graças a Deus os BALANTAS nas FARP e em maioria no tecido social Guineense.

Na altura patrioticamente não quis admitir… Mas cada dia que passa ele teme a ter a razão... Moral da História: A discriminação seja de que natureza for é sempre um factor de DESUNIÃO e de enorme sofrimento da parte discriminada, também é uma das causas de RADICALISMO E EXTREMISMO ATÉ DO GENOCÍDIO.

Pensem nisso e optem para Respeito na diversidade como um denominador comum na Reconstrução da nossa Nação.

Hoje felizmente senti que Guiné está no bom caminho simplesmente não vi nenhuns insultos aqui no Facebook contra etnia MANJACA. Portanto estamos de Parabéns e é esse o caminho para uma Guiné-Bissau reconciliada una indivisível.


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terça-feira, 2 de maio de 2017

O Dever da Memória: O Caso 17 de Outubro, ou massacre na Guiné-Bissau feito pelos dirigentes do PAIGC”

Um dos acontecimentos políticos que envolveu a opinião pública nacional guineense e internacional nos anos 1985 e 1986, foi o dito “ O Caso 17 de Outubro”, no decorrer do qual 12 pessoas acusadas de fomentar um golpe de Estado na Guiné-Bissau, foram condenadas à morte e 6 acabaram por ser executadas. 23 Anos depois, e embora conscientes da extrema fragilidade em que o país navega de novo, por força das razões ligadas à ética e em resposta às necessidades da História, achamos oportuno levantar o véu à volta do acontecimento, no intuito de não o deixar cair no opróbrio do silêncio.
Segundo extractos noticiosos devidamente verificados pelo autor

20.11.85, in «Diário de Lisboa» - «O Conselho de Estado da Guiné-Bissau formalizou a demissão de Paulo Correia das funções de primeiro Vice-Presidente daquele órgão institucional (…) … Paulo Correia foi exonerado daquele cargo e também de ministro da Justiça e do Poder Local. (…) O Conselho de Estado confirma que Paulo Correia estava envolvido na fracassada tentativa de golpe de Estado de há duas semanas para depor o Presidente «Nino» Vieira.»

25.11.85, in Diário Popular» - «Os conspiradores liderados por Paulo Correia tentaram desencadear por três vezes um golpe de Estado na Guiné-Bissau, segundo uma confissão do ex-Chefe do Departamento de Transmissões do Exército, Major Sana Fuma, divulgada pela rádio local. (…)»

Dezembro 85, in «Africa Hoje» n° 7Nino Vieira no Comício comemorativo do movimento 14 de Novembro, Praça dos Heróis Nacionais: «Dizem que o Nino é sentimental, que tem coração mole, que não sabe nada. Mas o Nino não é mole, camaradas, é rijo que nem ferro. (…) Nino vai ser duro contra quem seja oportunista, tribalista ou corrupto, contra quem infrinja a lei e, se for preciso, julgam-se os criminosos em tribunal e fuzilam-se.»

02.12.85, in “Notícias”: Nino Vieira à população de Cacine, região de Tombali: “ Não foi o povo balanta que tentou derrubar Nino. Quem tentou foi um grupinho que queria o poder, mas o poder só pode ser dado pelo povo.”

04.12.85, in “Diário de Lisboa– (...) “Sobre a recente tentativa frustrada de golpe na Guiné-Bissau, o Embaixador Leonel Vieira afirma que o predieente “Nino” Vieira “teve conhecimento, antes da sua partida para os Estados Unidos, do golpe que estaria a ser preparado por Paulo Correia”.

28.12.85, in “Notícias” – “Caso Paulo Correia marcou a Guiné-Bissau. A situação política pode ainda não estar completamente esclarecida. Em todo o caso, é inequívoco que “Nino” Vieira é a figura que constitui uma referência de unidade nacional e de coesão do Partido (PAIGC) e das forças armadas.”

08.01.86, in “Nô Pintcha”Nino Vieira à população dos Bijagós: “ O grupo de Paulo Correia será julgado (...) só eles deverá ir aos tribunais e não o povo balanta. (...) esse grupo de ambiciosos e oportunistas, que queriam com o seu condenável gesto, transformar a Guiné-Bissau num autêntico Tchad”.

08.03.86, in “Nô Pintcha”A intentona golpista encabeçada por Paulo Correia, ex-1° Vice-Presidente do Conselho de Estado e Ministro de Estado da Justiça e Poder Local, desactivada em Novembro findo, continua a apresentar os seus contornos internos, através das declarações dos participantes. Desta vez coube a Viriato Pan, ex-Procurador-Geral da República, alto funcionário do Banco nacional e do Ministério das Finanças, retractar-se. A sua declaração manuscrita em nove pontos que publicamos na íntegra, indica o seu percurso a partir do 14 de Novembro de 1980, de regresso ao País, e o porquê da sua participação no Golpe de Estado abortado, através do “convite” que lhe foi formulado por Paulo Correia.”

05.04.86, in “Nô Pintcha”“ (...) Entretanto, para que os deputados pudessem ver quão vil eram as intenções de Paulo Correiua, o Comandante Kabi anunciou que “chegaram a ponto de mobilizar alguns comandos africanos para integrar as suas unidades, comandos que cometeram tantos crimes. Esqueceram-se disso tudo para se juntarem a eles.”

02.06.86, in “Diário de Lisboa”“João Zacarias António Pereira, ex-comandante do Bombeiros Voluntários de Bissau e um dos implicados na tentativa de golpe de Estado de que Paulo Correia é tido como o principal instigador, faleceu ontem no hospital. (...) Um despacho da ANG informa que (...) de 47 anos, faleceu (...) vítima de enfarte no miocárdio, que lhe provocou paragem cardio-respiratória.

03.06.86, in “Diário de Lisboa”“Nino acha que os presos políticos na Guiné-Bissau são bem tratados.”

03.06.86, in “Diário de Lisboa”“O falecimento do antigo comandante dos Bombeiros Humanitários de Bissau, eleva assim para seis o número de mortes ocorridas entre as cerca de cinco dezenas de detidos, após a descoberta de tentativa de golpe de Estado liderada por Paulo Correia, em Novembro do ano passado. Apenas uma das mortes, a de João da Silva, ex-secretário de Estado do desporto e antigo comandante das Forças Armadas Guineenses, se deveu, oficialmente às forças da segurança, quando o antigo dirigente tentou fugir da prisão e foi abatido por um guarda.”

06.06.86, in “Diário de Notícias”“ O Tribunal Militar de Bissau iniciou ontem o julgamento do ex- vice-presidente do Conselho de Estado, Paulo Correia e de outros alegados implicados numa tentativa de golpe de Estado ocorrida em Outubro do ano passado. O julgamento decorre no salão da Base Aérea da capital da Guiné-Bissau, após 3 terem decorridas as formalidades legais prévias, referiu um comunicado do Tribunal Militar, assinado pelo seu presidente, o coronel do exército Humberto Gomes.”

06.06.86, in “Diário de Lisboa”“Expulso jornalista. (...) O jornalista José António Salvador, delegado desta agência em Bissau (ANOP), noticiou na passada sexta-feira que iria começar o julgamento de Paulo Correia, ex-vice-presidente do Conselho de Estado da Guiné- Bissau, acusado de liderar um alegado golpe militar destinado a derrubar Nino Vieira. Não tardou que fosse chamado à presença dos responsáveis guineenses que o puseram “entre a espada e a parede” : “ou revelava as fontes de informação da notícia ou seria expulso pela divulgação de um assunto que estava em segredo de justiça...”. José Salvador não cedeu e o resultado está à vista.”

06.06.86, in “Diário de Lisboa”“Expulsão de José Salvador preocupa Governo português. Estranheza e preocupação pela expulsão do delegado da ANOP, foram manifestadas ao encarregado de Negócios da Guiné-Bissau em Lisboa, ontem chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. (...) A direcção da ANOP recorda que foi o terceiro caso de expulsão de jornalistas da ANOP. (...) Idêntica posição assumiu o sindicato dos Jornalistas que dá especial ênfase à recusa de José António Salvador em revelar a suas fontes: é a única maneira digna num caso destes por um profissional de informação. (...) De acordo com a direcção de informação daquela agência noticiosa (ANOP), a situação criada com a expulsão de José Salvador ultrapassa o simples quadro de cooperação entre a Anop e a ANG para se inserir no âmbito das relações entre Portugal e a Guiné-Bissau.”
07.06.86, in “Expresso”“O julgamento de Paulo Correia, ex-vice-presidente do Conselho de Estado da Guiné-Bissau, que se iniciou quinta-feira na capital guineense, constitui uma “farsa judicial” – consideraram fontes diplomáticas ocidentais acreditadas em Bissau. (...) ”

Desde Novembro, em várias intervenções públicas, Nino Vieira anunciou que Paulo Correia seria fuzilado, como admite a lei guineense, caso o tribunal militar decidisse neste sentido”.

“ (...) Nino Vieira vai prendendo sucessivamente os seus amigos: Paulo Correia, Aristides Menezes (...), membros da sua guarda pessoal e ex-companheiros de armas... (.) Um dos últimos presos foi o assessor de imprensa do Presidente Nino Vieira, o jornalista Cancan, que agora é acusado de envolvimento no caso Paulo Correia... (...) Cancan –Oscar Barbosa(...) destacou-se em Julho do ano passado ao promover e divulgar um comunicado da Presidência guineense que desmentia e atacava violentamente a Imprensa portuguesa que dera a notícia da alegada preparação de um golpe de estado da autoria de Paulo Correia.”

“Esta semana o Presidente da Guiné-Bissau convocou os membros do Tribunal Militar – um órgão teoricamente independente – ao Palácio Presidencial alegadamente para os repreender pela divulgação da data do início do julgamento difundida em despacho da ANOP.”

(...) Regista-se actualmente uma onda de repressão que envolve a perseguição policial a membros da chamada seita religiosa “iangue-iangue” cuja expansão Nino Vieira atribui também a Paulo Correia. Assim se vão prendendo em Catió, Bafatá, Gabu e Nhacra eventuais apoiantes de Paulo Correia.”

07.06.86, in “Expresso” Valentim Loureiro ao EXPRESSO: “Presidente Nino Vieira é um verdadeiro humanista”. Do que conheço do Presidente Nino, posso afirmar que é um verdadeiro humanista. Sempre o vi ultrapassar bem os problemas internos que foram 4 surgindo na Guiné-Bissau, perdoar, recuperar os adversários políticos, defender a pessoa humana acima de tudo. Não posso crer portanto, que, por razões políticas, ele abdicasse destes princípios por que sempre lutou.”

08.06.06, in “Diário de Notícias” – “EXPULSÃO”: “ Por se recusar a identificar as fontes de informação que lhe proporcionaram a notícia, um jornalista português foi expulso da Guiné-Bissau. José António Salvador, delegado da Anop naquele país, limitou-se a cumprir o que a consciência e a deontologia profissionais impõem a qualquer jornalista.”

08.06.86, in “Diário de Notícias”O Ministro de Estado da Administração Interna, Eurico de Melo, considerou ontem ser ‘chocante para o nosso conceito de liberdade e democracia a expulsão do jornalista da Anop José Salvador do território da Guiné-Bissau.

11.06.86, in “Diário de Notícias”“O Secretário de Estado para a Comunicação Social (...) destacou que em Portugal é de todo inconcebível o exercício de qualquer represália só porque um jornalista guarda sigilo das suas fontes de informação, usando, aliás, um direito que a lei lhe confere.”

12.06.86, in “Diário de Lisboa” – “Os advogados de defesa nomeados oficiosamente para defenderem os 58 réus conotados com a alegada tentativa de golpe de Estado na Guiné- Bissau, liderada por Paulo Correia, consideraram não ser fácil a sua tarefa. (...) Os advogados de defesa nomeados oficiosamente são: Carlos Pinto Pereira, Alal Saneh, Filipe Nery, Menino Gomes, António Abdulai Keita, Numa Pompílio Benício, Mussabcairabah Sanhá, Waldemar Cunha e Carlos Mendonça.”
13.06.86, in “Expresso”“ (...) Os cárceres abarrotam, a Justiça, sumária, faz-se à porta fechada, sucedem-se os funerais de detidos. O ministro das forças armadas é igualmente o chefe da segurança, e - para que não restem dúvidas a ninguém sobre o destino que espera quem desagrade o regime – acumula também a pasta da Justiça. (...)...tudo se passa a coberto do silêncio mais cúmplice”. (...) Foi por ter rompido esse silêncio, noticiando nos últimos meses uma sucessão de prisões e de mortes com que o regime do Presidente João Bernardo “Nino” Vieira tem varrido o país que o jornalista português foi expulso da Guiné-Bissau.”
14.06.86, in “Diário Popular”“A Anop tem conhecimento do internamento de 13 presos num pavilhão do Hospital Central de Bissau (dos quais um em estado grave) e ainda de cinco mortes, na prisão, de réus deste processo (uma delas não anunciada). Outras fontes referem 15 mortes.”

17.06.86, in “Diário de Lisboa”“ O procurador-geral da República da Guiné-Bissau, Joseph Turpin, declarou ser difícil prever a data do fim do julgamento de Paulo Correia e do seu grupo em virtude dos processos serem volumosos e complexos.”

17.06.86, in “O Dia”Referindo-se aos detidos que morreram na prisão, o Procurador-geral da República, Joseph Turpin, disse que à execepção de João da Silva (...) que foi abatido por um guarda prisional, por tentativa de fuga em pleno dia, os restantes pereceram por doença! (...) Precisando, disse que Agostinho Gomes faleceu no dia 1 de Maio findo por insuficiência cardíaca. B’nhate Na Beate perdeu a vida, no dia 12 de Fevereiro, devido à 5 tensão arterial de que padecia há muito tempo, o que o levava várias vezes ao estrangeiro para tratamento, nomeadamente na União Soviética. (...)... Disse igualmente que o ex-coronel Foré Na Bitna faleceu no dia 29 de abril, devido a endema pulmonar... (...). E que João Zacarias António Pereira (...) morreu no dia 1 de Junho devido a uma longa doença que se agravou quando esteve preso.”

17.06.86, in “Diário de Lisboa” – “ (...) A classificação de farsa dada em alguns círculos diplomáticos de Bissau a este processo jurídico não lhe atenua em nada a gravidade: o réu corre o risco de ser condenado à morte, conforme o presidente “Nino” já o disse. (...)... João da Silva e Agostinho Gomes (...) morreram na prisão no curto espaço de algumas semanas e, por mais que as autoridades garantam o contrário, ninguém acredita que se tenham finado por doença ou por desgosto. (...) Ignora-se, porém, o paradeiro de dez pessoas dadas como “desaparecidas”, assim como se desconhece o número exacto de presos políticos, pois a perseguição policial estende-se às regiões menos acessíveis do país.”

18.06.86, in “Nô Pintcha”“ O Tribunal Militar Superior iniciou os seus trabalhos no passado dia 5 do corrente e prossegue normalmente as sessões de acordo com as Leis do Código do Processo Penal e também com as normas processuais em vigor na República da Guiné-Bissau. O Tribunal, presidido pelo coronel Humberto Gomes, é composto por Dr. João Soares da Gama, juiz-auditor e os vogais tenente-coronel Aliu Camará, primeiro-tenente João Gomes e o tenente José Tavares; como Promotor da Justiça o tenente António Afonso Té.”

12.07.86, in “Nô Pintcha”O Tribunal Militar Superior fará hoje às 10 horas a leitura dos quesitos e as suas respectivas respostas, assim como da sentença, dos implicados no “Caso 17 de Outubro”, indica um comunicado do Tribunal distribuído ontem aos órgãos da comunicação social. O julgamento do “Caso 17 de Outubro”, a tentativa de golpe de Estado encabeçada por Paulo Correia teve início a 5 de Julho último, na Base Aérea de Bissalanca, arredores de Bissau. O Tribunal Militar Superior é presidido pelo camarada Coronel Humberto Gomes.”

15.07.86, in “Carta do Centro d’Informação e Documentação Amílcar Cabral (CIDAC) ao Presidente João Bernardo Vieira”“ Foi com emoção que conhecemos a sentença do tribunal Militar que condenou à morte 12 guineenses acusados de conspiração. Pedimos à V. Exa. que use o supremo poder de clemência para comutar a pena e poupar avida dos condenados. (...). ”

16.07.86, in Nô Pintcha”“ O Tribunal Militar Superior condenou à pena de morte por fuzilamento Paulo Correia, ex-Primeiro Vice-Presidente do Conselho de Estado. O ex-ministro da Justiça e Poder Local, considerado pelo Tribunal figura principal da falhada tentativa de golpe de Estado de Outubro do ano passado, “Caso 17 de Outubro”, foi condenado à pena capital juntamente com Viriato Rodrigues Pã, Binhanquerem Na Tchanda, Tagme Na Wae, Wagna Na N’Fade, Pedro Ramos, Braima Bangura, K’Pas Kull, Sae Braia Nhakpa, Lamine Cissé, N’Bana Sambú e Malam Sané.

Entretanto o Tribunal Superior Militar absolveu os réus Caramba Conté, Alberto Na Haba, Damna N’bunde e Blacré Na Dum.

Os restantes implicados (...) foram condenados a penas que vão de um ano a quinze anos de “trabalho social produtivo obrigatório (SPO).

O comunicado do tribunal Superior Militar refere que aos réus condenados à pena capital, de acordo com a lei em vigor, assiste-lhes o direito de recorrerem ao Conselho de Estado, pedindo a concessão de graça, no prazo de três dias.”

19.07.86, in “Expresso”“O Conselho de Estado da Guiné-Bissau anunciou ontem a comutação de pena de 6 dos 12 condenados à morte... Nos seus considerandos, o documento do Conselho de Estado, dirigido pelo Presidente João Bernardo Vieira, indica ter comutado 6 das penas à luz ‘do humanismo (...) legado pelo fundador do PAIGC, Amílcar Cabral’, enquanto a sua intransigência relativamente aos outros seis réus condenados à morte decorre de um alegado ‘atentado contra’ (...) os interesses mais profundos do povo da Guiné-Bissau’. Entre os seis sentenciados au fuzilamento figura Paulo Correia, que era vice-presidente do Conselho de Estado.”
19.07.86, in Nô Pintcha” – O Conselho de Estado decidiu comutar as penas aplicadas pelo Tribunal Militar Superior aos réus Tagme Na Wae, Wagna na Fande, K’Pas Kull, Saia Braia Na Nhakpa, Lamine Cissé e Malam Sane. (...) E a recusa do pedido de graça aos réus, Paulo Correia, Viriato Rodrigues Pã, Binhanquerem Na Tchanda, Pedro Ramos, Braima Bangura e N’Bana Sambú.
19.07.86, in “Expresso”“Em contacto telefónico às 17 horas de ontem, o Presidente Mário Soares intercedeu mais uma vez junto do Presidente da Guiné-Bissau, “Nino” Vieira, para um acto de clemência em relação aos condenados à morte cuja pena fora confirmada horas antes.”

“O estadista guineense manifestou-se sensibilizado pelo teor do telefonema de Mário Soares, embora nada adiantasse quanto à sorte de Paulo Correia (...), Viriato Pan (...), Binhanquerem Na Tchanda (...), Pedro Ramos, Braima Bangurá e N’sambu (...).”

“ O contacto ontem estabelecido por Mário Soares fora antecedido, na segunda-feira, pelo envio de Valentim Loureiro a Bissau com missão semelhante, atendendo a que é Cônsul honorário guineense no Porto.”
“Ontem de manhã, o Presidente da República recebeu em Belém uma delegação de familiares dos seis condenados... (...) ”

22.07.86, in “Diário de Notícias”“Foram já fuzilados os seis condenados à morte por envolvimento no alegado golpe de 17 de Outubro do ano passado, anunciou o ministro guineense dos Negócios estrangeiros, Júlio Semedo. Além de Paulo Correia, antigo vice-presidente da Guiné-Bissau, foram fuzilados Viriato Rodrigues Pan, Binhanquerem Na Tchanda, Pedro Ramos, Braimo Bangura e N’bana Sambú.”

“Júlio Semedo disse, igualmente, aos diplomatas estrangeiros, que os seis réus que tiveram as suas penas capitais comutadas pelo Conselho de Estado vão agora cumprir 15 anos de prisão cada um, explicando que o seu Governo pretende, no campo interno, o reforço da unidade nacional.”

Recorte sem data visível, in “Diário de Notícias”“ O Ministério dos Negócios estrangeiros, por intermédio do seu porta-voz, Embaixador Brito e Cunha, tornou pública a sua posição a propósito dos fuzilamentos na Guiné-Bissau, afirmando que ‘ o Governo português deplora vivamente que não tenham sido ouvidos os apelos de clemência’, dirigidos às autoridades daquel país. (...) ”

“ O Presidente da República enviou, cerca da meia-noite, um telegrama para Bissau, dirigido a Maria Nascimento, viúva de um dos executados, a manifestar a sua ‘profunda indignação’ com a execução do marido, ‘ depois de ter tentado tudo para o evitar.”

Recorte sem data visível, in “ O Dia”, página 28 – “ Tudo está consumado. Os apelos do Papa, da Europa, do Presidente português, do Chefe do Governo, dos guineenses em Lisboa, foram lançados para o cesto dos papéis pelo tirano que um dia derrubou Luís Cabral. Caiu a máscara ao ‘humanista’ que o embaixador da Guiné em Portugal nos quis apresentar.”

Os que fazem “ O Dia” acreditaram que as palavras do Embaixador da Guiné em Lisboa correspondiam à verdade. Segundo descrição do diplomata, Nino, só de ouvir falar em condenação à morte, punha-se a chorar...”

Recorte sem data visível, in “ O Dia”, extracto do Comentário de Ayala Monteiro: ”Ele depôs Luis Cabral, mas, qual iluminado detentor exclusivo da verdade, não tolera que os outros não sejam senão o eco da voz dele. (...) O iluminado chama-se Bernardo Vieira e é Presidente da República da Guiné-Bissau. (...) ”

26.07.86, in “Expresso”“ Nino Vieira e Iafai Camará, as máscaras caíram.”

“ (...) O fuzilamento de Paulo Correia, ex-vice-Presidente do Conselho de Estado da Guiné- Bissau, acusado de tentativa de golpe de Estado contra Nino Vieira, culmina de forma trágica a acção repressiva desencadeada em Bissau desde Outubro do ano passado. Os pelotões de fuzilamento são a última cena de uma peça política repetidamente ensaiada por Nino Vieira: primeiro, para depor o ex-Presidente Luis Cabral em Novembro de 1980 e romper com Cabo Verde; depois para apear Vitor Saúde Maria, ex-primeiro-ministro do seu gabinete até janeiro de 1984; e agora para aniquilar Paulo Correia e todos os oficiais que se opunham à sua política incompetente e corrupto. (...).”

“ Os fuzilamentos de Bissau constituem um acontecimento trágico não só pela sua crueza sangrenta e mesquinha, mas também por esse sinal que introduzem na História comum de Portugal e da Guiné confirmando que, esta semana, Amílcar Cabral morreu pela segunda vez.”

26.07.86, in “Expresso” – “ (...) Em vésperas de partir para os Estados Unidos, onde foi participar na sessão comemorativa do 40° aniversário da ONU, o Presidente guineense, acompanhado de membros da segurança, prendeu um grupo de oficiais das Forças Armadas em meados de Outubro. Seguiu depois para os EUA e daí para Portugal... (...) ”

“Este compasso de espera em Lisboa terá permitido a Iafai Camará, ministro das Forças Armadas, e a José Pereira, responsável da polícia política, desenvolver uma ampla acção repressiva que se saldou pela prisão de mais de cinquenta oficiais das Forças Armadas acusados de conspirarem contra o regime. (...) ”

“ João da Silva, um herói da luta de libertação, ex-Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, ex-Secretário de Estado dos Desportos e membro do Comité Central do PAIGC, é detido, em Novembro de 1985, sob acusação de envolvimento neste caso. Na prisão é torturado e quando protesta é abatido a tiro pelos carcereiros. A versão oficial é ridícula: 8 para justificar o sucedido, a polícia política afirma que o preso arrancou duas barras de ferro da sua cela com as quais agrediu os guardas prisionais. A esta acção fria e calculada sucedem-se mais cinco mortes nas prisões de Bissau. Todas elas ocorrem quando Nino Vieira se encontra em viagem pelo estrangeiro. Os funerais são realizados em segredo até que o escândalo se torna conhecido da opinião pública internacional. As autoridades de Bissau atribuem, então, as mortes a doenças naturais dos presos, embora se saiba na capital guineense que todas as vítimas foram sujeitas a sevícias e torturas a que não resistiram. O ex-director do Grande Hotel, Agostinho Gomes, é um dos detidos que falece na prisão de Bissau. A polícia política considera que ele morreu por doença mas, durante o funeral, constata-se que a vítima apresentava o pescoço partido. Agostinho Gomes tinha sido acusado pelo próprio Presidente Nino de aliciar ex-comandos africanos do Exército-português para o alegado golpe de estado.”
OCaso 17 de Outubro Segundo o resumo das revelações do oficial das Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP) Quebá Sambú, então Chefe dos Serviços da Contra-Inteligência Militar (SCIM) na altura dos factos, no livro intitulado ORDEM PARA MATAR – Dos fuzilamentos ao caso das bombas da Embaixada da Guiné

Com o objectivo de preparar as comemorações do 3° aniversário do golpe de Estado do 14 de Novembro de 1980, o coronel Humberto Gomes, comandante da Brigada Mecanizada 14 de Novembro, destacou um dos seus capitães, em ocorrência o capitão Cassamá, para ir coordenar a participação no desfile militar previsto para o efeito, do Grupo de Artilharia Terrestre (GAT), com os seus carros de combate BM-13 e BM-14. O capitão Cassamá pôr-seia em contacto com o primeiro-tenente Mário M’bunde, comandante dos blindados. Entre os dois, gerar-se-ia um mal-entendido à volta da recolha das chaves dos carros que, afinal, poderiam estar na posse do tenente Quessala Ialá, adjunto do primeiro-tenente Mário N’bunde. O capitão Cassamá e o primeiro-tenente Mário M’bunde ter-se-iam acusado mutuamente do suposto transvio das chaves, até que estas acabariam por ser encontradas.
No entanto, o que fora um mal-entendido, transformar-se-ia numa terrível suspeita que levaria o ministro das Forças Armadas, o coronel Iafai Camará a ordenar que o primeiro-tenente Mário M’bunde fosse submetido a um interrogatório à volta de um suposto transvio de chaves. No fundo, suspeitava-se que o primeiro-tenente pertenceria a um grupo de oficiais de etnia balanta, investidos na preparação de um golpe de Estado contra o Presidente João Bernardo Vieira. Da investigação que se seguiu, resultaria a detenção de vários oficiais da etnia balanta, que por sinal já constavam duma lista nominal de pretensos conspiradores, lista essa confeccionada pela rede de informações do coronel Iafai Camará, paralela aos Serviços de Contra-inteligência Militar (SCIM) e depositada nas mãos do próprio Presidente da República.
O procedimento do ministro das Forças Armadas, Iafai Camará, levariam os SCIM a recolher as declarações do sargento Dominik Sanhá, do Batalhão de Mansoa. Nas suas declarações, aparentemente sem nenhuma hesitação, o sargento afirmaria que os mentores da conspiração eram o Paulo Correia, ministro da Justiça e do Poder Local, Vice-Presidente do Conselho de Estado e membro do Comité Executivo da Luta do PAIGC e o Viriato Pã, Procurador-Geral da República. Sobre Paulo Correia, o sargento daria informações estranhamente precisas, à volta da sua participação nas reuniões dos presumíveis conspiradores, do local das concentrações secretas, carro utilizado, etc. Dominik Sanhá acusaria ainda muitos outros oficiais, na sua maioria balantas, alegadamente fazendo parte do plano, todos indo parar à prisão.
Depois de ter ouvido todos os detidos a comissão de inquérito acabou por considerá-los isentos de culpa. Cada um deles pode então regressar de novo à sua unidade. O sargento Dominik Sanhá, autor das falsas acusações, substituí-los ia na prisão.

Mas, decididamente, embora se tenha provado a inocência dos oficiais balantas, dias apôs o encerramento do caso, Iafai Camará ordenaria o próprio Quebá Sambú, membro da comissão de inquérito que teria desempenhado um papel preponderante no apuramento da inocência dos detidos, para ir entregar ao ministro da Justiça e do Poder Local, Paulo Correia, as gravações que o acusavam de conspiração. O visado, antes de ouvir as gravações, teria questionado se o Presidente da República estaria a par das atitudes do seu ministro das Forças Armadas? Paulo Correia faria “sentir a necessidade de que fossem tomadas medidas para protegê-lo de futuras acusações falsas, tendentes a implicá-lo na organização de qualquer atentado contra a soberania do Estado.”
Depois do seu primeiro insucesso, o ministro Iafai Camará alargaria os seus tentáculos recrutando mais autores à volta dos seus intentos. Assim, a orquestra passaria a contar com um outro mestre do solfejo: o ministro do Interior, José Pereira. Em consequência, o vice-presidente da comissão de inquérito, que estipulara a libertação dos acusados de tentativa de golpe de Estado da segunda semana de Dezembro de 1983, N’hare Iala Nhanta, Director-geral da segurança Nacional do Ministério do Interior, seria demitido das suas funções e colocado nos Serviços de Viação.
Várias outras supostas tentativas de golpe de estado teriam sido fomentadas pelas mesmas fontes e visando sempre a mesma figura, até aí com os mesmos resultados de ausência de apuração (falta de provas).
O “último semestre” de 1984 poria a nu a promoção a tenente dos membros do Tribunal Militar. Iafai Camará tê-los-ia investido na nova patente, “numa cerimónia clandestina em que só ele e os graduados estiveram presentes...”

De maneira estranha, embora a promoção a tenente dos membros do Tribunal Militar tivesse sido considerada irregular, pois não fora analisada pela Comissão das Patentes e o EMGFA e por conseguinte não ter sido levada ao conhecimento oficial do Presidente da República, o acto permaneceu válido. Iafai Camará, quem não parecia disposto a relaxar a sua pressão, designaria esses “graduados irregulares” para integrar a comissão de inquérito incumbida de aprofundar a implicação do Paulo Correia numa alegada sedição.

Aproximativamente, no segundo semestre de 1984, um novo golpe de Estado presumivelmente perpetrado por oficiais balantas da Marinha de Guerra, teria sido descoberto. O Presidente da República nomearia mais uma comissão de inquérito para se ocupar do caso. Mais uma vez apurar-se ia a “ imaterialidade da acusação de tentativa de sedição.” Como nos casos precedentes, um braço de ferro opunha os prós às medidas punitivas contra os caluniadores e os contra...

Queba Sambú, chefe dos Serviços da Contra Inteligência Militar (Serviços secretos do Exército), em audiência pessoal com o Presidente da República, João Bernardo Vieira, concluiria que “todas as pretensas conspirações para um golpe de Estado tinham sido produto de intrigas insidiosas, sem um mínimo indício de veracidade.” Seria a última vez que teria a oportunidade de se entreter com o Presidente da República o qual “ não se dignou pronunciar uma única resposta às sugestões apresentadas...” Queba Sambú teria sido convidado a abandonar o gabinete do Presidente, sob pretexto da chegada duma nova visita.

Ainda segundo as revelações contidas no livro referenciado de Queba Sambú, eis como teria decorrido a prisão do ministro da Justiça e do Poder Local, Vice-Presidente do Conselho de Estado da República da Guiné-Bissau e membro do Comité Executivo de Luta do PAIGC, coronel Paulo Correia e outros dirigentes e oficiais arrastados juntamente com ele para a prisão da Segunda Esquadra da Polícia em Bissau:

As ondas de tribalismo teriam ganho força e consistência acabando por subir à superfície do próprio Batalhão da Guarda Presidencial, no palácio da República. Chefe e vice-chefe da casa Civil da Presidência respectivamente o Binhanquerem Na Tchanda e José Monteiro, deram-se ao exercício de acentuar o antagonismo tribal na unidade que dirigiam. Foram decididas as suas transferências, o primeiro para a Embaixada da Guiné-Bissau na então URSS, passando pelo ministério dos Negócios Estrangeiros e o segundo para o ministério do Interior, na eventualidade de seguir para Cuba.

A viagem para Moscovo de Binhanquerem Na Tchanda estaria marcada para a quinta-feira do dia 17 de Outubro de 1985. Alguns dias antes da sua partida, o transferido fora despedir-se do Presidente da República, o qual, certamente grato pelo gesto, ofereceu-lhe dinheiro em moeda americana, o dólar. Na véspera da sua partida, o ex-chefe da casa Civil da Presidência organiza uma festa de despedida com alguns amigos. Alguém, que se julga ser um vizinho, vendo as portas e as janelas da casa do Binhanquerem fechadas e ouvindo vozes no interior, teria informado o Presidente João Bernardo Vieira de que algo de insólito se estava a passar na residência ao lado donde morava. No entender do Presidente poder-se-ia tratar de uma grave conspiração contra ele.

O Presidente telefonaria de antemão a um outro vizinho do Binhanquerem, que não era nenhum outro senão o próprio Paulo Correia, pedindo-lhe que fosse verificar a informação. Paulo Correia confirmaria ao Presidente, pelo telefone, que efectivamente as portas e as janelas da casa em questão estavam encerradas e havia vozes provenientes do interior. Naquela noite, João Bernardo Vieira, rodeado dos seus guarda-costas, deslocar-se-ia pessoalmente à casa do Binhanquerem, para se inteirar, in locco, da eventual trama que se preparava. “Assegurando-se de que o ambiente da reunião de convívio era apenas festivo e não de conspiração, o Presidente teve, contudo, de explicar o motivo da sua irrupção. Ao ouvi-lo, o major Tué Na Bangha exprimiu a sua admiração por o Presidente se deixar facilmente enredar em mentiras, observando que, se estivesse a preparar um golpe de Estado, não se reuniriam naquelas circunstâncias, e acrescentou não compreender como era 11 possível o Presidente admitir que conspiravam contra ele, depois de tanto tempo e tantos sacrifícios passados juntos.”

Isso não impediu ao Presidente João Bernardo Vieira de dar conhecimento da cena ao ministro do Interior, José Pereira, que por sua vez o teria transmitido ao seu colega das Forças Armadas. Consequência directa deste jogo de xadrez de sentido único, o Binhanquerem Na Tchanda, bem como todos os oficiais que com ele festejavam a sua despedida, foram detidos na Segunda Esquadra da Polícia e submetidos a interrogatórios, pelos oficiais de segurança do ministério do Interior, logo no dia seguinte.

Enquanto as audições decorriam na Segunda Esquadra, João Bernardo Vieira viajou para os EUA com o fim de assistir às comemorações do 40° aniversário da Organização das Nações Unidas. No quadro das suas funções de vice-presidente do Conselho de Estado, e na ausência programada do Presidente da República, cabia a Paulo Correia, assegurar a permanência do cargo durante a sua ausência...

Entretanto, os ministros das Forças Armadas e do Interior resolveram criar uma comissão para inquirir parte dos detidos. Submetidos a insuportáveis torturas, estes tiveram que confessar as acusações que pendiam sobre eles. Tué Na Bangha e Tagme Na Wae teriam sido de tal maneira torturados que, temendo que pudessem morrer, a Comissão de Inquérito transferi-los-ia para a Marinha de Guerra que, pela sua proximidade com o Hospital Militar, oferecia mais condições de evacuação em caso de necessidade.

Naquele mês de Outubro de 1985, Iafai Camará conseguira arrancar dos prisioneiros as confissões desejadas. Em seu poder, exibiria a cassete da gravação dos interrogatórios e gabar-se-ia frente ao Queba Sambú de finalmente possuir provas irrefutáveis que incriminavam o Paulo Correia. Afirmaria ainda ao seu interlocutor de que tinha expressamente substituído os oficiais dos SCIM por elementos do Supremo Tribunal Militar!

Entretanto, João Bernardo Vieira, depois de ter assistido às comemorações da ONU nos EUA, de regresso à Guiné-Bissau, passou por Lisboa onde permaneceria vários dias na capital portuguesa. Certos jornais classificaram o gesto de “compasso de espera”.

Chegado finalmente a Bissau, o seu Vice-Presidente não estava no aeroporto à sua espera como mandava o protocolo, pelo simples motivo de que a ele, tinham ocultado de propósito a chegada de João Bernardo Vieira.

Paulo Correia faria tudo para se entrevistar com o Presidente da República, mas a barreira de ferro já se tinha erguido entre eles. Comentando o facto, o ainda ministro da Justiça diria que se encontrava “completamente bloqueado” e que sabia que as intrigas, levadas a cabo pelos que chamava “rodeantes”, estavam a “bombardear” o João Bernardo Vieira de informações caluniosas sobre ele, ligadas a um pretenso golpe de Estado que teria preparado com os oficiais balantas.

No dia 6 de Novembro de 1985, no fim da tarde, Paulo Correia seria convocado a uma reunião no Secretariado do PAIGC. À sua espera encontravam-se, entre outros, o Presidente da República, Iafai Camará e José Pereira, já sobejamente conhecidos, e Lourenço Gomes, este último Director da Segurança Nacional.

Arquitectou-se então a cena da audição das cassetes onde Paulo Correia era apontado como mentor de mais uma tentativa de golpe de Estado contra o Presidente João Bernardo Vieira. “O ministro da Justiça ouviu-as num profundo silêncio, e no fim, ao ser indagado, por mera 12 formalidade, do que pensava quanto às acusações, respondeu considerá-las produto das actividades do inimigo dentro do Partido e terminou concluindo que o inimigo vencera.”

A ordem de prisão, que durante tanto tempo fora minuciosamente preparada, abateu-se sob os ombros de Paulo Correia que de imediato foi conduzido à Segunda Esquadra, na “Cela Sul”, a mais inospitaleira da prisão. Mais tarde, endereçaria uma carta ao Presidente da República, “alertando-o para o facto de haver quem, com intrigas e fictícios golpes de estado, estava a destruir o Partido.”

“Nino” autorizaria que Paulo Correia fosse retirado da prisão para um regime de residência vigiada. Esbarrar-se-ia aos protestos do seu ministro das Forças Armadas, Iafai Camará, que o induziria a abandonar a ideia sob pena de vir a sofrer pesadas consequências.

A exemplo do que se passara com os outros detidos, Paulo Correia seria submetido às piores torturas, por ordens expressas da Comissão de Inquérito, constituída pelos tais “graduados irregulares”, a soldo do coronel Iafai Camará.

Queba Sambú julga que “O Presidente Vieira” não teria conhecimento das torturas...”

O autor do livro Ordem para matar – Dos fuzilamentos ao caso das bombas da Embaixada da Guiné, depois deste acontecimento e de mais outros que relatou, pediu que fosse substituído no cargo de Chefe dos SCIM e ser transferido para o estrangeiro.
Acabou por integrar o efectivo da Embaixada da Guiné-Bissau em Portugal.

“ OCaso 17 de Outubro” Hoje não é segredo para ninguém de que “Nino” Vieira desprezou o apelo do Papa João Paulo II, virou as costas às organizações internacionais e traiu a confiança das mais diversas entidades nacionais e estrangeiras, que lhe pediram solenemente, em nome da humanidade, para que poupasse a vida dos seis condenados à morte, gesto que poderia, talvez, mudar o curso da história na Guiné. O que o teria levado a exibir tamanha arrogância?

Para começar, fazemos de novo apelo ao Queba Sambú, que no livro já citado, escreve:

“Por um carcereiro e outras fontes, que ainda não posso citar, soube que na prisão, enquanto se aguardava a concessão de clemência, Paulo Correia dizia: ‘ É verdade que estão a fuzilar cidadãos inocentes? Não, não posso admitir que isso seja uma realidade! É incrível que o Presidente se tenha deixado convencer de uma tão incoerente tentativa de golpe de Estado! Ao menos, dêem-nos oportunidade de vermos os nossos filhos pela última vez!”

No entanto, Álvaro Nôbrega, no seu livro intitulado “A luta pelo poder na Guiné-Bissau” revela por sua vez o seguinte:

Depois soube-se que quando os pedidos de clemência chegaram, os réus já tinham sido fuzilados e enterrados. Segundo a África Continental foram-no poucas horas depois do termo da reunião do Conselho de Estado.”

Entretanto, no término do delicado exercício de recomposição a que nos entregamos à volta do “Caso 17 de Outubro”, deparamo-nos com uma revelação insólita do jornalista João Carlos Gomes , tornada hoje dia, que, em resumo, diz:
(...)... Baseado nas informações a que o autor desta peça teve acesso, apesar do facto de que Paulo Correia foi condenado à morte pelo Tribunal Militar, conta-se que o então Presidente Nino Vieira ainda não tinha proferido o seu veredicto final, enquanto Primeiro Magistrado da Nação. (...) Aparentemente, o Presidente estava a avaliar, não só, o impacto político-militar da decisão, a nível nacional, mas também, a reacção da comunidade internacional, antes de fazer cumprir a pena de morte. (...) ”

E o jornalista continua:

“Entretanto, segundo as mesmas fontes, alguém na hierarquia governamental decidiu mandar cumprir a sentença. Quando, face às reacções que estava a receber, tanto a nível interno como internacional, o Presidente Nino Vieira voltou a abordar a questão do Paulo Correia com o indivíduo em questão, foi informado de que: “No bibil dja udju” (termo crioulo, utilizado noutros tempos, no seio do PAIGC, como código para, ‘fuzilamento’). (...) ”

Mas o Álvaro Nôbrega volta à carga: “Recentemente tem sido divulgada uma nova explicação para o facto dos seis condenados à pena capital não terem sido poupados. Os pormenores não são muito abundantes em relação a quatro dos fuzilados, mas sobre o Paulo Correia e Viriato Pã, as caras do Golpe, conta-se, segundo o ‘Banobero’ que terão sido brutalmente seviciados após a condenação.”

Eis com efeito, o que o jornal guineense ‘Banobero’ escreve: “Quebraram a bacia do Paulo Correia e este rastejava, na Segunda Esquadra (...) pois não podia caminhar. Ao Viriato Pã ferroaram-lhe os olhos.”

Retomando Álvaro Nôbrega: “ Fisicamente destruídos, estes homens constituiriam, aos olhos de todos, a prova viva da falta de humanismo do regime pelo que se ordenou a sua rápida execução em local que permaneceu secreto até à queda de Nino em 1999, ‘encontrando-se’ por essa data a vala comum com 22 cadáveres; os mortos do processo cujos corpos nunca foram entregues às famílias, nem aos cuidados de um médico legista.”

“Teriam sacrificado os outros (...) para que não se dissesse ser ‘o segundo homem’ do País o único alvo político, e dessa maneira tornar mais verosímil a mistificação dos golpes de Estado?”

//Norberto Tavares de Carvalho